terça-feira, 17 de novembro de 2009

America parte III

Aeroporto de S.Antonio Texas. 4 da manhã, depois do último concerto que acabou há meras três horas. Depois do duche no motel do costume, de cabelos bem molhados e de olhos bem abertos, estamos na àrea do check in, entrando na fase final, os quilómetros (e as milhas áreas) duros da recta final da nossa maratona pelo Novo Mundo. Consultemos a agenda infernal:

3.00- sair de S.Antonio
4.00- aeroporto
6.00- voo para Monterrey, Mexico
9.00- check in no Sheraton Monterrey
14.00- soundcheck (ao qual não compareço para não gastar o fio de voz que me resta)
22.00- no palco
6.00- check in aeroporto
8.00- voo para a cidade do México

E repitam pelo infinito até dia 19, quando regressaremos à pátria. É assim, num resumo possível:

San Antonio, Texas, EUA, escala em Houston, destino final Monterrey, concerto, voar Monterrey, cidade do México, concerto, dia de viagem, folga em Valencia, Venezuela, outro dia concerto, sair da Venezuela, Valencia, Caracas para apanhar o avião, depois de uma viagem por estradas infernais, voar para a Colômbia, tocar, ir para o aeroporto, voar para Quito, tocar nesse dia, hoje de madrugada, mais uma sem dormir, voar para o Chile, tocar daqui a umas horas, amanhã, 8 da manhã no aeroporto, voar, tocar Buenos Aires, voar segunda de manhã para S.Paulo, dia de folga, tocar na Terça, arrumar tudo, voar para Portugal, chegar de madrugada, pousar as malas, respirar.

A vida tem sido rápida desde que vos deixei nas outras linhas. A aproximação à Califórnia, trouxe o bom tempo, o excelente vinho, e os maneirismos Californianos que conseguem divertir e irritar ao mesmo tempo, de uma maneira impressionante e renovada com cada visita nossa. A primeira paragem é São Francisco, onde reencontramos o nosso camarada Venice e o nosso amigo John Gonçalves (The Gift) ambos nas suas aventuras pessoais pela Américas que em boa hora se cruzam connosco, trazendo-nos o calor da amizade lusa que tão bem sabe em qualquer parte do planeta. O concerto está cheio mas o clube é bem modesto. Montamos o cenário, mais uma vez, num espaço físico improvável e ligamos o motor de toda a gente que enche aquele espaço e o transfigura do sítio mais feio do mundo, num local pleno de emoções. A aproximação da Noite das Bruxas é palpável e vêem-se já sinais de comemoração antecipada na fauna que compra bilhete. Para além dos metaleiros, há bruxas que não voam, carrascos que não falam, é São Francisco, diverso, bonito, generoso, com os cabazes da nossa Gothic Gourmet (Beverly) e dos nossos amigos Robert (com os vistos do Brasil na mão!!!) e a sua esposa Jana a coroarem a noite. Depois de três garrafas de Coppola e de fumos medicinais, ao concerto segue-se um recital de kazoo, cortesia do Mike que para sempre ficará gravado nas nossas memórias.

Ramona, Califórnia parece uma cidadezinha saída dum filme, com as suas barbearias, a sua única avenida larga, os carros que circulam. Uma espécie de cidadezinha Eduardo mãos de Tesoura sem o toque ou o tique do Tim Burton, mas com as casa e passeios certinhos e a tranquilidade do isolamento entre montanhas e estradas e serviços. O concerto, apesar de ser na noite de Halloween, é uma espécie de antecâmara para o dia seguinte, Dia dos Mortos, em Los Angeles, no mítico Roxy em plena Sunset Boulevard.

É já nesta gigantesca avenida, à porta do Guitar Centre (um dos maiores do mundo) que acordo com a triste e profunda notícia da morte do António Sérgio (descanse em paz). É triste receber notícias assim e a impotência da distância alarga o horizonte dessa tristeza. Pouco posso fazer do que enviar os nossos respeitos a quem sempre lhe há de querer bem. O António Sérgio conquistou, pela voz e pelo amor inteligente pela música, a sua imortalidade.

Atravesso a estrada para um pequeno almoço de omeleta e fruta (aqui nesta avenida tudo é famoso até este grill de quatro ou cinco mesas) e passo o resto da manhã a comprar banda desenhada, incluindo a nova aventura 3D do Clive Barker, Seduth. Alguns dólares depois é tempo de subir ao Roxy e lá está, beneficiar do status que Los Angeles têm para dar (partilhar a mesa com a ex-actriz porno Jasmine que telefona ao seu ex-colega Ron Jeremy, mesmo ao meu lado, e com a sua nova conquista o algo desalentado e atordoado Mustis (ex- Dimmu bogir, tantos exs caramba!, no sim,sim, sim mítico Rainbow; ser cumprimentado por toda a gente, conhecida ou menos; trocar algumas palavras com o Kannon dos míticos, esses sim, Hirax e respirar aquele ar de rock stardom que o Rainbow e as suas histórias têm em definitivo, tivemos uma boa mesa, passámos um bom bocado)~; mas também o reverso da medalha, a atitude de quem já viu tudo ( o pessoal técnico do Roxy teve de ser posto em sentido pelos tugas!!!) e a quem não interessa nada. E não interessa, o concerto é brutal, sala quase cheia (se fosse hoje o halloween, e não o domingo da ressaca…) mas ao rubro, com a nossa maquiadora/fã Morgan, numa azáfama para nos pôr…hmmm…como personagens deste Dia dos Mortos, passado a tocar com todo privilégio de estarmos vivos.

Por entre os sacos da Hustler, da Guitar Centre, da excitação de L.A. Lá partimos para o país real, e as próximas datas até ao Texas são tranquilas, mais pequenas, com um cancelamento à mistura (crise e má promoção) que nos traz um bem vindo dia de folga (a voz agradece) e nos permite reequilibrar as contas da nossa cabeça e resistência, enfrentando o Texas, os seus pássaros agressivos (eu e o Venice fomos atacados por um pardal furioso que nos conseguiu fazer mudar de mesa) e as suas amazonas texanas num final feliz de uma tour Norte Americana, dura mas eficaz, que nos permitiu tornar-nos uma banda melhor, mais consciente do nosso valor mas também das dificuldades que todas as bandas passam na perseguição do sonho que nos alimenta desde a origem: tocar e encantar. Haver culto.

Como sabem em poucas horas estamos novamente em palco, num renovado Café Iguana no México, cheio que nem um ovo de serpente, para o primeiro banho de multidão no México, para a primeira das reacções apaixonadas da América que é mesmo Latina. Em rota para uma das minhas cidades preferidas (cidade do México) penso nisto tudo, nesta vertigem de milhas e milhas e esqueço com profundidade as injustições e omissões que nos fazem no nosso país (lista do Blitz por exemplo) e lamentamos que mais bandas não saiam como nós fazemos, não pela quimera da internacionalização, mas sim porque a distância nos permite estar mais connosco, com a nossa música, com o nosso trabalho. Não estamos em casa a teorizar listas e ódios de estimação. Tal como muitos bandas estamos a trabalhar e a ganhar fã por fã, tostão por tostão. A feira de merchandise pirata de Moonspell fora da venue Circo Volador e mais de duas mil pessoas a cantar em uníssono e em PORTUGUÊS o refrão da Alma Mater vale muito mais a capa do Blitz que nunca havemos de ter ou o respeito dos despeitados da Imprensa que mete os Buraka ou algum do fado exportado num lugar que não têm, mas que os Moonspell têm. Basta ir ao youtube e comprovar.

A América Latina, apesar dos Sheratons e das enchentes, têm o seu darkside e temo um encontro com este, infelizmente, na terra natal do nosso baixista Aires, em Valencia, Venezuela. Um país que vive uma ditadura de isolamento, em que as pessoas se sentem excepcionais por fazerem parte de algo “superior” ao capitalismo ocidental, mas que na verdade para comer um hamburger no Burger King se paga 20 euros, onde te tiram os cigarros por serem narcóticos, onde te olham com tudo menos respeito, onde te tiram as impressões digitais pelo simples facto de trocar dolares por bolivares (fortes). A juntar a isto fica a mudança não avisada para uma sala pequena (um auditório) onde quase 800 pessoas se aglomeram num espaço de 300 e poucas, ficando gente de fora, a espreitar de bilhete pago pela entrada da porta e um promotor que não toma conta de nós, nem nos paga na totalidade. Sabendo que uma banda volta sempre, ficamos contentes em apanhar o avião para a grande revelação surpresa da tour: Quito, Equador. Não antes sem passar pela Colômbia, em menos de 24 horas, arrancando (apesar dos problemas técnicos do video) em Bogotá, uma reacção fantástica de mais de um milhar de pessoas que nos vão ver e nos acolhem como uma banda grande, que há onze anos não viam e que sublinharam veemente que não vão deixar passar mais onze anos sem que lá voltemos!!! Gracias Bogotá!!!

Não sem antes (ainda no capitulo venezuela) enviarmos um abraço aos fãs sacrificados da Venezuela que se multiplicam em desculpas no myspace, quando se não fossem eles nada teria fazer sentido, estas provações seriam terríveis, e também uma palavra ao grande Alfredo Escalante (ídolo da rádio e do rock na Venezuela, uma das poucas pessoas no mundo que entrevistou o grande Freddie Mercury, por exemplo, ídolo da juventude do nosso Don Aires, Alfredo que faz a viagem de Caracas a Valencia para apresentar o nosso concerto, trazendo-me à memória o nosso António Sérgio, pela sua importância e até fisionomia, lerei com todo o gosto a tua biografia Alfredo!).

No Quito, o dia começa bem, e a noite acaba melhor num convívio com fãs. Somos recebidos no aeroporto com uma bandeira Moonspell e as gentes que enchem o clube (mais pequeno que Bogotá) mas a rebentar pelas costuras dão-nos provas de que o Equador é um país no caminho da simplicidade e depois das confusões todas essa é uma excelente notícia. Que grande país e que grande noite! Aos Tiamat ainda acontece o desagradável do gás pimenta lançado por um fã mais excitado mas quando subo ao palco para cantar com eles a Sleeping Beauty a nuvem já não está lá, apenas a paixão de muitos.

Vou tomar agora uma banho, devorar a club sandwich daqui deste Sheraton de Santiago e preparar-me para a noite chilena. Afinal recebi um telefonema do Mike a dizer que temos de começar a tempo por causa das autoridades, que o promotor vendeu muitos, mas muitos bilhetes e que nada se pode atrasar e que me “vou passar com o sitio”. Vamos a isso.


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12 comentários:

Vera Calvário disse...

É sempre um orgulho saber que vocês são reconhecidos fora deste mundinho onde nascemos.
Aguardo ansiosamente o vosso regresso na expectativa de vos ver novamente em breve. Até lá, acompanho com agrado as descrições dessa fantástica tour.
Uma última nota: BLITZ??? MAS QUEM É QUE LÊ A BLITZ ACTUALMENTE? Muahahah
Vocês são a melhor música em Portugal!

Ricardo disse...

Eu estive no Roxy...com a bandeira tuga!

starfish disse...

Olá! :)

Estou a ver que continuam numa grande correria.
A música consegue unir muita gente... é maravilhoso as coisas que fazemos por um artista que gostamos. Neste caso, banda. E isso dos fãs da Venezuela é um grande exemplo. Muito admirável, mesmo.

A foto em que estás a segurar as garrafas de Coppola está excelente. Ninguém te tira esse ar de mauzão ehehehe. Agora, na quarta foto, de cara pintada... estás a ver se nos assustas é? Ui que medo! ;)

O importante é que se tenham divertido com a tour, e calculo que também aprenderam um pouco mais sobre a vida e o mundo em que vivemos... mesmo sendo a nona vez que lá vão.
E agora sim, após tantos aeroportos, correrias, noites sem dormir, podes respirar fundo.

Bem-vindo a casa, Fernando :)

Beijos

Caroline Sky disse...

Your Welcome!!!!
Moonspell will be always welcome in Colombia, and of course South America.
Is sad to know that your visit to my country was very short (arrive, play and go), but at least you were able to see how much us, the colombian fans, love the band. Hope to see soon the video that you recorded!!!
Don't take too long to come back please!!!

Again, it was great to talk to you at the meet&greet (I was the one who ask you about amalia hoje), you looked very tired that day but it doesn't stop you to shared a moment with the fans. THANK YOU A LOT!!!
Cheers from Colombia,
Caroline

António Dias disse...

Viva Fernando e a toda a banda Moonspell.
Se há coisa que mais me deixa entusiasmado ao nível da musica, é ler e ouvir sobre as tours que músicos fazem por esse mundo fora. Deixo já um abraço saudoso, assim que voltem a Portugal, logo no próximo concerto, não posso faltar, com um cartaz a dizer "Bem Vindos de volta".
Obrigado por nos dares a visão interior de uma tour num diário de bordo tão simples.
Um abraço amigos.

Khris Forero disse...

É uma vergonha que aconteceu na Venezuela...mas estou muito feliz que eu li que você gosta de estar em bogota... saludos fernando!

Jovita disse...

Post feito no dia do show no Brasil, qual tive orgulho de estar presente, e mesmo estando perfeito com as musicas esperadas do show, vem a surpresa de Nocturna e Mephisto.
Agradeço novamente, e digo que é sempre bom ler suas palavras.

Durães disse...

Já tive a experiência de tocar fora deste cantinho à beira mar. E chego à conclusão que não é só o BLITZ que não dá valor às bandas nacionais... existe por ai muitos frustrados musicais que não deixam as bandas nacionais crescer..

Coré disse...

Também estava no show de São Paulo. Simplesmenre Magnífico! quanta energia! quanta presença...de palco e de alma.Ando anciosa pra ler aqui, como a apresentação em solo Brasileiro será descrita.

Decadência Sulista disse...

Realmente, quem é que lê a blitz (assim mesmo, com letra pequena)!! bem vindos de volta. descansem que queremos vê-los em força brevemente (sei que em janeiro vão tocar com Bizarra Locomotiva na FIL certo?)

Grande abraço e Stay Heavy!!

Branca disse...

Uau!
Parabéns!
De qualquer modo, não posso perdoar não me terem enviado postais, que tanto adoro!
(",)

Sucesso!

Um abraço,

Rosa Branca

Anônimo disse...

Ainda não tinha tido oportunidade de ver estas fotos, estão lindas, o Fernando fica sempre bem, mas gosto especialmente da foto com as garrafas, está muito bonito.
É tão bom ter o nosso ídolo a escrever no blog, dando nos a hipotece de entrar um pouco na sua vida, não imagina o orgulho e admiração que tenho por si.
Ainda bem que se divertiram e continue a escrever.

beijinhos da sua "vizinha"
Raquel Valente