Tour USA parte 2
O nosso comandante Pedro Venâncio, aka Venice, diz-nos até já. Foi uma semana bem passada, desde Atlanta, um break na sua rotina dourada dos hotéis de cinco estrelas e de comida a horas, acolhido pelo sorriso mais sentido, quase adolescente do nosso amigo dos ares, que nos faz recuperar a magia daquele charme sujo do estilo de vida Rock, que, por vezes, esquecemos no meio da ansiedade de que as condições nos façam justiça. Ter um comandante da TAP a carregar as nossas caixas e instrumentos, a pôr as nossas águas e toalhas a jeito no palco, dormindo no back lounge do autocarro, a partilhar pizza fria e café, não é para todos. Significa que não há melhor status que a amizade. Obrigado Venice. See you in Frisco.
Há que nos determos sobre esta particularidade dos EUA. As condições são duras, a crise, aqui e ali, afecta algumas vendas de bilhetes mas há no fim deste arco-íris, por vezes negro, algo que reluz. Os já muitos amigos que temos nos EUA tornam a nossa vida mais fácil quase sempre, e equilibram o que de negativo possa haver nesta rotina de doidos. Ou o nosso amigo Tony Mecha, Brooklyn, NY, com os seus presentes e hospitalidade e verdadeira amizade, que vem de longe, dos seus tempos do mítico L’amour e amizade mútua Peter Steele e Type O, reforçada pelas últimas férias em Lisboa, connosco; não olvidando o bom americano, o Mark Creevy de Chicago que nos enche o autocarro de Samuel Adams, octoberfest, provavelmente a melhor cerveja do (novo) mundo e nos satisfaz o capricho das compras electrónicas; ao americo/brasileiro Robert Archie, também já com uma passagem em Lisboa no seu currículo, que para além de todo o vinho californiano e cabaz gourmet, ainda nos desenrasca junto ao consulado brasileiro em S.Francisco no calvário dos vistos temporários de entretainers, exigido burocraticamente pelas autoridades do pais irmão, não sem o seu quê de irónico já que estaremos por lá menos de 48 horas, diferente do facilitismo português em situações mais e por bastantes vezes menos idênticas. A amizade e a hospitalidade mima-nos e permite-nos momentos de qualidade no mais absurdo ou sujo dos sítios. Agradecidos!
Hoje é Seattle, que dispensa apresentações musicais. O clube é o Studio Seven/Showbox, mítico e sujo como quase todas as salas de aspecto bem grunge da sua capital e berço. Todas as salas tem bandas a tocar, a ensaiar, a dar no duro, umas mais acertadamente que outras mas criando um ambiente que nos coloca perante o privilégio de não sermos nós fechados no local de ensaio, mas sim a fechar a noite em palco, num dos concertos mais esperados da digressão, graças à estupenda reacção da última passagem por aqui em Novembro último com Danzig e Dimmu Borgir.
Até cá chegarmos estivemos três vezes no Canadá, com Vancouver a rivalizar em beleza, modernidade e adesão do público/tratamento da banda com as melhores salas Europeias e com a visita do aniversariante John Gonçalves (The Gift) companheiro destas e de outras andanças. Uma semana antes, Montreal, a confirmar sempre a regra de um dos melhores concertos das tours Norte Americanas, apesar do episódio, infelizmente not on tape, entre Don Aires e a polícia local.
O Aires tem as suas dificuldades com a porta do autocarro, em especial à noite, onde todos os gatos são pardos, e a seu quid pro quo com a entrada da sua casa sobre rodas, chama a atenção dos vizinhos que prontamente evocam a segurança máxima da cidade de Montreal. O vosso escriba já dorme o sono dos justos mas sente as pancadas nas paredes de alerta da policia. Mas, habituado às confusões da estrada, limito-me a virar a cabeça para o outro lado do travesseiro, deixando ao Pedro (Paixão) o papel de narrador, salvador da situação e testemunha da revista (de perna aberta) a Don Aires e ao seu diálogo com a autoridade que termina em boa disposição, iluminado pelas sirenes dos cinco carros da polícia que responderam à chamada.
Seguimos para o Mod Club em Toronto, um sítio fantástico, situado no quarteirão Português. Há Sumol (manga infelizmente) e água das Pedras no frigorifico do camarim e tudo adiciona a um dia não só muito produtivo e passado, à portuguesa, no café da esquina e uma noite bem passada, protegida pelos murais com versos camonianos e o seu busto em mármore, na entrada do clube. Os dois dias que se seguem são, esperadamente, os mais fracos e mais duros da tour, Cleveland numa Segunda Feira não é fácil e Detroit numa terça não destoa. Apesar do pitoresco Rock de Detroit, a crise nesta cidade que já foi a capital mundial do automóvel, sente-se nas ruas abandonadas e Cleveland é tranquilo sempre, para não dizer aborrecido. Chicago salva a semana e prova-se outra vez como a cidade talismã (com NY) para Moonspell e cuja fidelidade do público, a grande comunidade polaca desta cidade ajuda, será a maior do território Norte Americano, apesar da competição feroz da California cujas pré-vendas são as melhores da tour. E o clima primaveril já se deseja depois dos frios do Noroeste Americano.
O único senão de Chicago é o concerto ter lugar num sports bar daqueles dos filmes onde as pessoas se encontram para ver a final da Super Bowl (futebol americano) o que retira ambiente ao concerto embora a canja de galinha ao fim compense. O quarteirão de Kansas City, embora não Português,é de todo agradável e o Riot Room, pequeno mas com estilo de grande. O público hispânico toma conta do concerto, e nós temos de tomar conta deles, o entusiasmo tem destas coisas. O Mike tatua uma rosas roxas “across the street” e o Sábado à noite transforma as ruas nume festa de filmes, com carros conduzidos por afro-americanos, cheios de lcds laterais, a picarem-se nas estradas e miúdas bem vestidas mas mal bebidas a fazerem drama nas ruas, entre os três Portugueses (o nosso grupo) que comem os cachorros quentes e nocturnos antes de partirem rumo ao Velho Oeste, direcção Colorado.
O cabaret Cervantes, sic, revela-nos uma pequena mas verdadeiramente entusiasta audiência que fica até ao fim nesta noite fria de Domingo, passada entre lattes, skype e sestas. Também nos revela que nem todos os promotores tentam o seu máximo, e a promoção de 5 dias apenas não ajuda ao milagre apesar do concerto pequeno ter sabido a grande.
As próximas 24 horas, com pausas fisiológicas, são passadas numa viagem de doidos desde Denver a Vancouver, Canadá (vejam no mapa) adicionando mais umas boas centenas de quilómetros (2 milhares aliás, um Lisboa-Zurich num dia) à rodagem da banda, e os filmes repetidos no sinal de satélite (mais de 600 canais ao nosso dispor, medo…) que quebram a inflação de tédio que faz os quilómetros esticarem pela estrada do tempo fora.
A noite da viagem acaba num diner, com um pequeno-almoço de panquecas, ovos e bacon bem saboreado e o desejado (e prévio) banho quente nos hospitaleiros e enormes quatros do Holiday Inn Express.
Vem aí a Califórnia, vem aí o Texas. Vem aí a odisseia Latino Americana. Cacahuentes, el gran espirito del oso.







