Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Show your ass, pack your stuff

A janela do nosso camarim em Durbuy, Bélgica, dá cá para fora para o palco "secundário" onde as tarefas dificeis dor Rock estão em plena actividade, no cruzamento entre as bancas de merchandise e bijuteria alternativa, o omnipresente hot dog e o cair do dia, excitando a noite.

Tocam, naquele presente momento, uma banda cujo nome esqueci. O estilo é aquele rock com um pé no betinho, Orange amplifier, com atitude punk, tipo o vocalista a descer até à meia centena de pessoas e dançar com elas, beijar a miúda gorda com os dreadlocks coloridos. Conseguida a reacção, volta ao palco, e brinca com guitarras, cabos, e mostra o cu, em apoteose Rock. Esta banda amanhã, provavelmente, estará a vender muitos discos na América e a aparecer, ao vivo, no Conen'o'Brien

Passado mais uma banda no palco principal (New Model Army, yeah!)e entra outra banda e esta sim lembro-me do nome Peter Pan Raging Speedhorn, rock, metal com muito Motorhead e atitude. Os nossos amigos dos quais não me lembro do nome, já arrumaram, já estão a distribuir flyers, a caminho da carrinha em direcção ao horizonte. Um caso, mais outro de Show your ass, pack your stuff.

E o que é bonito: é que nada há de decadente neste mostrar e arrumar. Cada vez me fascina mais o sonho do rock, o compromisso sobre o qual falei na última coluna da Loud!para o atingir, compromisso esse que não significa cedência mas, pelo contrário, a luta comprometida (ai, as palavras!!!)para conseguir, e, passo a passo, no verdadeiro sentido da estrada.

Por isso sei que, apesar dos pesadelos ocasioniais, eu sou nada mais que um privilegiado e trabalhar todos os dias e estar a compor todos os dias por muito estranho ou exagerado que pareça, é em absoluto normal. Privilégios não se discutem, honram-se.

É num e de um intervalo de um ensaio para o Hellfest (sim já tocámos milhares de vezes estas canções) que vos escrevo. Está um calor terrível, mas não se compara ao calor interior que é estar a noite toda acordado a descobrir novos mundos dentro do nosso.

Sábado, 30 de Maio de 2009

Federação Ibérica, não gracias!!!

De vez em quando, não há mesmo tempo dentro da cabeça e os sentimentos que a invadem também precisam de alguma protecção. Por isso apesar do meu coração estar noutro dos sítios, hoje prefiro falar de alguma coisa que não seja dele e aqui chegamos ao tema deste post "retrasado":

Federação Ibérica.

Eu não quero!

Muito se tem falado deste assunto nestes últimos tempos tendo pessoas que admiro tanto, como António Lobo Antunes, se pronunciado a favor desta ideia, tendo, obviamente a sua teia de razões. Não me pretendo arvorar em defensor da pátria mas o cansaço da nossa "impossibilidade" de país, cansa-me.

É um facto que a nossa classe política e decisória é, na sua maioria, medíocre e desperançada. Exemplos abundam, infestam as àguas. Como é possível, por exemplo, concorrer a um cargo de deputado Europeu em simultaneidade com um cargo autárquico ^(Elisa Ferreira, Porto)? Esta papice custa e o povo, anestesiado, não deixará de castigar a pouca vergonha e o mísero tacto. Como é possível que o CDS Nuno Melo vá ser enfiado em Bruxelas, quando é uma voz inteligente e carismática no parlamento? Outros exemplos haveria, mas apetece avançar. Estamos conversados e conformados, mas será Portugal só quem manda e quem esquece?

O meu historiador preferido (A.H.Oliveira Marques)diz que Portugal é um acidente geográfico. Que não existe, na Europa do seu tempo, não do nosso, um país com independência física perante um colosso (Espanha)como este nosso canto. Isso não me deprime, anima-me. Á boca pequena da História fala-se de razões. Conde D.Henrique de Borgonha, "ligações templárias", rouba o Porto (gal) a Espanha. D.Dinis, um século depois, concretiza o pinhal (madeira para as caravelas, parece um livro de Dan Brown, mas não é especulação pior ainda, para verificar de onde vem o trauma da nossa impossibilidade: da nossa radical origem. Porque somos país então? Por interesse visionário, por preseverança, porque Espanha deixa?

A Federação Ibérica é fruto do ressentimento que todos temos contra o nosso país e que não conseguimos resolver de modo algum. É o capitular, a desistência e ao assumir que o nosso país nunca, historicamente, teve muito sentido. É o gasóleo mais barato em Espanha, é o viver melhor, é a prestação e é a relva mais verde no quintal do nosso vizinho. Ás vezes parece-me que as pessoas que o dizem nunca foram à Espanha, melhor às "Espanhas" que os reis católicos forçaram juntas e que assobiam ao hino e não o acompanham em Bilbao. Portugal, até no exercício político de ser uma provincia Ibérica, nunca seria a Catalunha. Não por nos faltar identidade, mas por ela divergir, e como, dos nossos vizinhos geográficos. Já encontrei mais semelhanças com Gregos do que com Espanhóis.

Não levem para o caminho errado, adoro Espanha, porque é Espanha e pelo seu tamanho consegue, muitas vezes, ser mais nação que nós. Porque talvez ninguém questione tanto o seu direito a ser nação e a ser, manta de retalhos ou país, o direito a ser. É mau e terrível deixar o ressentimento falar. Sim, este é o país Cronos, devorador dos seus filhos, mas mesmo assim um país com voz própria e atitudes, mesmo deploráveis, que eu nunca encontrei em parte alguma do mundo. Lembra-me a África do maginfico livro de Obama Dreams from my father, a propósito de uma refeição na casa de uma historiadora no Quénia: "Olhem para a refeição de peixe que comemos (...) muita gente vos dirá que os Luo são um povo que só comia peixe, bem é verdade mas só os que viviam ao pé do lago(...) antes de assentarem, eram pastores como os Masai.(...)os quenianos orgulham-se do seu chá mas adquirimos este hábito dos Ingleses. Os nossos antepassados não beberiam tal coisa. E os molhos usados no peixe vêm da Índia ou da Indonésia. Vêem? Esta nesta refeição não encontrarão o autêntico que os jovens negros americanos buscam em África- embora a refeição seja genuinamente Africana."

É nesta autencidade, neste invisivel cheiro a terra de país, nesta mistura pós produzida numa nação que nos temos, hoje e sempre, de concentrar. Porque não estamos aqui por acaso, porque não gostamos do país só pelas suas qualidades mas que temos de aprender a lidar com força com as suas contigências e horrores, tal como fazemos, ou deviamos fazer com as pessoas. Porque não podemos deixar o ressentimento falar mais alto que nós. Porque usar um crachá de Portugal não é usar uma suástica (e mesmo que o fosse, a suástica era um símbolo de paz e movimento até ser invertido por homens, os nazis, que não tinham noção de nação mas sim de um mundo robótico e perversamente feito à imagem da sua fraqueza, eram políticos, não viviam nas ruas). Porque faz sentido termos chegado aqui e não podermos desistir e nos vendermos ao gasóleo mais barato, à ideia de uma Califórnia espanhola, à ideia de que os homens de cultura serão em Espanha melhor tratados.

Portugal pode ser um país de asnos mas será sempre um país. Leiam o final da Ilustre Cas de Ramires, que o Eça sabe melhor que todos nós.

Post scriptum: A única Ibéria que quero ver e ouvir são os IBÉRIA 6 de Junho na Moita no In Live Café. BE THERE!!!

Sábado, 25 de Abril de 2009

Alguns dias de dor para outros de Rock

É oficial. Estamos na estrada outra vez e a primeira semana foi lenta a passar. As mensagens sucedem-se no meu telefone: bem-vindo à Bélgica,à Alemanha,à Rep.Checa, à Polónia, à Bielorrúsia, à Polónia outra vez, à Eslováquia,à Roménia, a já nem sei onde na confusão dos dias com as noites e das noites com o dia.

Estou no meio de uma das músicas quando sinto. Em baixo, do lado esquerdo, região lombar, a dor. Aguda, ciática, como um pequeno e depois grande choque eléctrico, para cima nas costas, para baixo na perna. No meio do calor, por baixo das roupas, dos acessórios, da comunhão com o público de Varsóvia, uma pequena vertigem. No camarim, o contentamento de outra grande noite, quando se arrefece a preocupação. Sem nada à mão, apenas um creme. Passa outro dia, a dor aumenta but the show must go on. As noites são mais duras, as estradas do Leste impiedosas nas suas curvas e alturas.

A minha primeira sessão de fisioterapia/massagem é surreal. Passa-se na Eslováquia, uma massagista de meia idade, loura oxigenada, tipo mulher almodovar mas de Leste. Num estúdio chamado Relax, mobilado a Ikea, contrastando com cor e o estilo próprio, já familiar na nossas mentes, do rigor prático do edificio, ginásio onde tocamos em Bratislava. Surreal porque eu sem falar uma palavra de checo, ela sem falar uma palavra de Inglês, exemplificando como eu me devia virar, durante uma hora e tal, até que finaliza e o baterista de Cradle (Martin) serve de tradutor para as más noticias: um disco da coluna desviado, prisão do nervo ciático. Chamadas sucedem-se e opiniões também: chamamos um quiropata, metemos uma cinta, estalamos as costas. A decisão vem de mim: fico assim, faço a fisioterapia possível, as massagens possíveis e avanço com uma consulta no especialista em Portugal, raios X e depois sim a terapia que tiver de seguir. Agradeço à senhora que me oferece a massagem e uma cinta fabulosa, que me endireita e põe no sítio, roubando espaço à postura errada e permitindo passar os concertos a fazer, com alguma confessa cautela, aquilo que sinto, que é reagir ao nosso som, às suas ondas, sombras e luzes como se a dor não estivesse lá e não se libertasse até, traiçoeira, durante o sono, fazendo-me dar um grito mudo quando posição no beliche é outra ou quando a confiança dos cremes, dos alongamentos e massagens do Mike, me possibilita fruir a tour outra vez.

Passou quase uma semana, a dor está lá à espera. Ontem em Belgrado, Sérvia, outra massagem, suave, melhores noticias, um tempo espetacular, um concerto intenso. Volta o Rock com a dor mas estou preparado para engolir quilómetros, dar gritos mudos, beber pouco, andar muito embora mais devagar, sabendo que a dor nos acorda para a realidade dos nossos corpos limitados mas que também torna cada concerto, cada conquista, cada "a sério? tens isso nas costas não reparei em nada!" mais saboroso, ajudando a pender a balança e o equilibrio de forma mais justa, tanto para as noites e dias de Rock, como para a sua irmã Dor.

Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

A crise dá trabalho

Gosto de escrever aqui quando estou exausto e mais ou menos no fim das forças, farto de lutar mais contra mentalidades do que contra improbabilidades, porque esse cansaço é como que uma certeza, uma garantia e uma assinatura. Uma revelação se quiserem que tanto me frustra como me anima, um pouco, salvem-se as comparações, como saber do paradeiro de uma pessoa desaparecida mesmo quando a nótícia não é a melhor. Daqui a pouco começa o descanso, cai o Sol, mas nesse mesmo descanso a inquietação e uma certa vigilância subsistem porque essenciais a quem quer viver da melhor das formas possíveis e, por isso, trabalhar para o garantir.

Notícias públicas e privadas mas do foro profissional conduzem-me ao assunto de hoje. Leio no Correio da Manhã que pelo menos um milhar de artistas recorrem ao subsidio de emergência da SPA (Sociedade Portuguesa de Autores, da qual não sou membro), 70% músicos. À noticia acrescentam-se declarações dramáticas do seu Presidente, José Jorge Letria. Do outro lado, na minha inbox, faltam as respostas que quero e eu, teimoso, persigo-as mas sem muito resultados, queimando desde o plano A até ao plano Z e descobrindo, irritado, que nem todo depende das minhas horas ao ecrã (escrever na luz, como diz o meu amigo JL Peixoto, sem dúvida, feliz por escrever e esperar coisas bem melhores)e que o mar de Sines lá fora terá de esperar pelo mail, pela chamada, pela urgência dos que não têm urgência. Depois entra o pensamento: mas será que sou eu que não consigo desligar. Bem, já lá vamos.O tempo voa.

Sempre me chamou a atenção o factor humano das crises. Apesar de tantas as perspectivas a considerar, a verdade é que somos vítimas e culpados da mesma. Vítimas porque vivemos as consequências directas, não os políticos que as causam pois até o seu andar e o seu comer é pago por nós, por isso políticos a falar da crise é como eu a falar da fome em África depois de ter almoçado há meras horas; e culpados porque não sabemos imaginar as saídas apenas lamentando a falta delas.

Vejo uma mantinha em promoção na montra de uma loja de brindes e louças e entro na loja para tentar comprá-la. Cumprimento os empregados e peço o que quero. Dizem-me que está ali em baixo, mas eu não encontro aquela que quero, aquele padrão. Está na montra, podem ir buscá-la, por favor? Não, dá muito trabalho tirar aquela (a mais gira, a que eu quero!!!) da montra. Que faço eu? Viro as costas, mãos vazias, menos dinheiro na caixa da loja, boa tarde, a rua outra vez.

Ainda no artigo do CM, procura revelar-se uma realidade dramática. Como a compreendo! Entre 1999 e 2000, pouco mais do que 50 euros tinha para me "governar" após as contas pagas, mas em vez de recorrer ao subsídio, recorri à poupança extrema e à imaginação voluntariosa, chateando meio mundo pela subsistência, minha e do meu projecto, conseguindo marcar 3 concertos em Portugal logo depois de o nosso agente Inglês me ter dito que era impossível. Tudo bem, não foi.

É verdade que a ignorância dos nossos governantes é aguda. Que lhes passa ao lado e pela frente o fenómeno do turismo cultural e que preferm fazer um novo Museu dos Coches em vez de dinamizarem opções menos caras e mais interessantes para todos os backpackers da cultura que enchem aos magotes a Saatchi em Londres (com pessoal alternativo a distribuir flyers pelas ruas como um produto, promoção). Quando despejamos as amostras de perfume e os flyers dos restaurantes indianos na reciclagem, aperta-se-me o coração, nem um flyer de um museu, lá distantes, no pedestal, tipo manta na montra da loja.

Mas, e sempre mas, das primeiras coisas que passa pela cabeça dos nossos artistas é o subsidio, a ajuda e, como artista, tenho sempre dúvidas, que infelizmente, quase sempre se confirmam, se esses nossos artistas, já esgotaram todas as hipóteses, antes de estender a mão. Quer-me parecer que não. E porquê? Porque é mais dificil. Não vou falar do teatro aqui. É uma arte que respeito muito e à qual entendo o mecenato, nem sempre bem distribuido e nem sempre bem gasto, mas falo sobre o pudor quase generalizado em juntar a essa arte uma lógica comercial, que é boa no sentido do retorno e da fidelização de público que vindo, legitima e faz da lógica da distância artista-objecto-público aquilo que ela é: trapeira, trapaceira, absurda. Quando se recebe o mesmo todos os anos não interessa na realidade se se tem duas, vinte ou duzentas pessoas num espetáculo.

Na música, essas unidades contam a valer. Por isso, antes da ajuda, existe a fase da invenção, pensar em nós enquanto criadores e na multiplicidade dessas criações e as saídas que elas nos possam dar para a nossa subsistência. Atenção, não falo de fazer tudo, mas muito mais de procurar o equilibrio entre a arte e a sua venda, percorrendo evidências e nebulosas, sabendo que somos o nosso próprio produto e vendedor e fazê-lo com brio, distinção e ver as coisas a acontecerem.

No caso dos Moonspell eu sou letrista e cantor mas faço produção executiva, merchandise, promoção, marketing, arranjo vistos para a Bielorússia quando já toda a gente desistiu, e não porque sou melhor que os , mas porque tento muitas vezes.

É essa a nuance: acho verdadeiramente que o mundo dos artistas não se divide só em qualidade e não qualidade mas que o factor do trabalho é quase tão determinante quanto o do talento e da paciência, saber percorrer caminhos, mesmo de rastos e não dar logo a mão ao primeiro estranho que nos aparece.

Este subsidio de emergência tem aliás uma lógica perversa: se é retirado dos direitos de autor e pressupondo que esses artistas não tenho dinheiro para viver, já não os geram, não será perigoso gastar reservas de outros artistas que os geram? Quando for para pagar a estes, o que acontecerá?

Este post resulta também de alguma observação empírica. Sempre fui o artista que chegava de Fiesta com 80.000 discos vendidos a encontros e concertos onde artistas com vendas e rendimentos menores chegavam com carros de alta cilindrada. Sempre vivi num T1 modesto perante as vivendas. Esperei o meu tempo, a minha estabilidade e consegui dar passos certos, no carro, na habitação, na vida e não via essa sensatez em praticamente ninguém. A crise também é resultado dessa inconsciência. Disso não tenho dúvidas. A necessidade aguça o engenho.

Agora vou esperar que as férias dos outros terminem, que os cerebros saiam da geleia, e que o tempo que perdi hoje não seja adicionado ao tempo em que os outros preguiçaram.

A luta continua e nós temos a chave única. Não se esqueçam dela.

Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Megafest

Fez ontem exactamente uma semana que aconteceu o Priestfest no Pavilhão Atlântico, como uma espécie de aquecimento para o Verão que se avizinha, com visitas promissoras (Slipknot, Lamb of God, Mastodon), e regressos que temos de esperar para ver como correm, bem como algumas presenças vibrantes em cartazes mais Underground que se já fidelizaram não tantos como desejariam pelo menos em sede própria e com alguma justiça, vão crescendo aos poucos. Como disse, o Verão aproxima-se e vão-se anunciando os cartazes, que para além da costumeira demora em se definirem ainda não chegam, e é verdade, ao faustoso cartaz de um Hellfest ou de um Metalway (este ano, para já, superiores ao Wacken) para quem deseja mais e mais, ou ao cartazes mais sólidos de festivais Europeus que se consolidam sem muitas queixas ano após ano, isto para os festivais mais pequenos.

É natural, e toda a gente sabe, que estamos em Portugal mas o que escapa, por muitas vezes, e quem viaja como amante de música ou “em trabalho” não me desmentirá que assistimos por vezes , entre portas, ao fenómeno estranho de que cartazes bem mais fracos e baratos do que alguns cartazes Europeus reúnem muito mais gente à sua volta (e não só exponencialmente) do que o Hellfest em que todas as bandas tocam (é difícil dizer uma que não estará lá este ano!) ou no Metalway, na vizinha Espanha, desenhados para as 25.000 ou 40.000 pessoas e que comparados com o cartaz do Alive! (um dia de Metal) proporcionalmente teriam mais gente, mas não! É um fenómeno curioso este mas apesar da crise as pessoas vão, as 6000 e tal pessoas do Priestfest foram das maiores audiências desta tour, e dá que pensar como se comportariam os fãs de Metal em Portugal se lhes servissem o banquete do Hellfest em vez da refeição sólida mas só de um dia do Rock in Rio (50.000 pessoas), Alive (30.000) ou SBSR (15.000 com Maiden, mais gente ainda com Metallica).

A tour Cradle of Filth/Moonspell/Turisas também não passará por cá. Ao que sei os promotores consideram cara e arriscada, a tour deste estilo que mais esgotou salas na Europa o ano passado (a outra foi Opeth, apesar de serem salas mais pequenas a que estes tocavam) e tão bom resultado teve que merece uma segunda parte passando por países (como Bielorussia, Rep.Checa, Itália, Sérvia, Roménia Eslováquia,etc.) que vivem com bem mais dificuldades que Portugal mas que mesmo assim, assumem o risco de nos ter lá e ao que se sabe com sucesso já nas pré-vendas. A última vez que Cradle e Moon tocaram juntos em Portugal, traduziu-se apenas em dois Coliseus cheios, coisa insuficiente para todos os promotores que, ao que parece, continuam a preferir o lamento ao risco, os festivais por toda a parte com 250 a 400 pessoas a assistirem, indiferentes à ideia de se juntarem uns poucos e fazerem algo maior, indiferentes ao fenómeno da adição de todas essas pessoas num evento único que, muita gente já me confessou, em pessoa, fazer falta a Portugal porque indo a Madrid esta tour, os Portugueses se sentem esquecidos…Mais fome mesmo que fartura sem o retorno necessário.

Mas voltando à noite da semana passada. Devo atalhar por dizer que saí todas as noites nessa semana. Segunda, copos tranquilos com a crew e a manager dos Megadeth (de tarde o Ricardo e o Mike mostravam as delicias culinárias e paisagísticas de Cascais a Dave Mustaine e Chuck Billy e seus pares, Ricardo incrédulo por no seu carro se sentarem estes dois últimos); Terça, Atlântico; Quarta, Hard Rock (esgotado pela primeira vez!); Quinta, família; Sexta, Metropolis; Sábado, Apocalypse e amigos. Ufff. Daí o meu “retiro” na bela e completa cidade de Sines (de onde escrevo) que cada vez me encanta mais, pela beleza, pela comida, pelos amigos, pela mistura industrial com litoral, por ser a casa do nosso Cirque de Soleil (Teatro do Mar) e por tudo o mais que só sentido, contado não tem graça.

Mas a semana passada, vi um concerto belíssimo dos Testament, com o som um pouco faltoso, típico da primeira banda de um festival, mas com uma garra e um contacto com o público que mais que compensaram esta ou aquela fugida do PA, e claro, não desfazendo em ninguém, com Paul Bostaph, portentoso como nenhum outro. No fim, vi Priest, oscilante, excelente som, um bocadinho a mais de theatrics , alguns momentos mortos com os temas mais recentes, muitos delays na Voz, mas, para além disso, toda a cultura Metal (até demais, em certos pontos) mas digno de ver e aplaudir, sempre.

E não, não me esqueci dos Megadeth. Nem podia já que a noite foi deles. Um metaleiro gosta, sempre, de coisas em grande, mesmo que o pé fuja para a bota. E os Megadeth foram exímios em dar um concerto BIG, tipo Monsters of Rock, mesmo em recinto fechado. Tudo contribuiu para isso: o palco simples e magnético, com a rack de bateria central , a parede de Marshalls, o pano só com o logotipo. As cores, pouco mais que o preto e o metalizado, muito, muito clean. O alinhamento, a pose, até um bocadinho a mais, os solos do novo guitarrista (Chris Broderick) que tão boa conta deu deles, os ventos nos cabelos de Dave Mustaine, a pouca mas eficaz conversa do mesmo, o momento altíssimo de quando tudo pára e segundos depois se canta o refrão do A tout le monde, o trautear gigantesco do riff de Symphony, um dos melhores de sempre do Metal.

Enfim, tudo foi grande, até mais BIG que grande. Aquele sentido de palco, distante mas próximo, sempre a puxar, de quem já foi talvez uma das maiores figuras do Metal e que não se esqueceu de tal. E com concertos destes não deixará ninguém esquecê-lo.

Tenho dito, não foi BIG, foi MEGA.

Sexta-feira, 13 de Março de 2009

Falhar melhor

Ontem foi um dia de alguma raiva pequenina, sentimento que é comum nestes e noutros dias que correram e que nos faz a dizer à boca pequena ou grande o quanto o nosso país falha, coitado do país, essa ideia e local e vibração, que embora defina os Portugueses, não os pode animar ao pormenor, na relação directa entre o pai que educa e forma e o filho que faz disso o que pode e o que quer.

Não vale a pena estar a referir o atendimento negligente, o rol enrolado de desculpas, o factor humano da crise, cada vez mais pronunciado, a ausência de ideias e com ela a ausência de esperança. O que vale a pena mencionar é o que não é feito e isso passa mais pelo que não foi feito, não em termos de acção, mas porventura de intenção, na relação directa daquilo que fica por dizer numa conversa, mas que soa tão alto; naquilo que fica por escrever num livro, mas que nos marca os sentidos; naquilo que fica por filmar num filme, mas que é o melhor dos presentes à retina.

Foi Samuel Beckett, dramaturgo e escritor Irlandês (Nobel em 1969)que cunhou esta expressão falhar melhor que no teatro justifica as quedas sucessivas, as brancas choradas pela noite dentro, o enfiar da personagem na confusão da pele e da alma, a maldição de ir fazendo sem o resultado que se espera. O teatro imita a vida, é como um concentrado da mesma, os grandes autores lambiam o dorso da vida de cima abaixo, pela frente, por trás e apresentavam-nos, mesmo na negação da mesma e da sua arte, essa vida em palco, na rua, nos bares, nas caves clandestinas. As famílias russas de Tchekóv, os loucos de Danill Harmas,o primeiro suspiro de Beckett, as zangas animalescas de poder e sexo de Sófocles, que são elas senão documentos da mais pura das vidas: a que se vive em pleno sol ou absoluta treva?

Voltando à terra ingrata, não sei se vos acontece mas o que é deprimente é mesmo a consciência absoluta de que não fazemos mais porque não queremos, que não apanhamos a caneta do chão porque nos temos de dobrar mais uns centímetros, que passamos mais uma hora na cama em vez de nos levantarmos para estarmos na vida activa, que embora trabalhemos numa empresa que representa clientes façamos de conta que o problema não é nosso, que a representação é uma miragem burocrática, que o conseguir dá muito trabalho e que esse muito trabalho é, muito mais do que queremos admitir, muitas vezes apenas um sorriso, apenas levantarmos o cu da cadeira, menos uns minutos de televisão, menos um clique à direita.

Porque cada vez mais observo e penso e sinto: a crise em Portugal é só uma questão de segundos, de centímetros, do brio magoado de um país em berço de ouro negro dos escravos, de pessoas preocupadas em deixarem passar as horas através do nada quando as podiam preencher com o tudo.

Para a semana temos os Priest para lamber as feridas com electricidade. Até lá não é contar os minutos, mas fazer com que estes contem.

Quinta-feira, 5 de Março de 2009

Haja Saúde

Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higéia e Panacéia, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue:... (ínicio do Juramento de Hipocrates)

Da Justiça para a Saúde, este blog arrisca-se a tornar-se outro muro de lamentações e contra-resposta,por isso há que dar a volta e contar uma história bem mais agradavel e curiosa com o seu quê de lição e tomada de posição própria, como não podia deixar de ser...

Fui operado a um lipoma na testa. Nada de especial, uma pequena cirurgia plástica com a sua razoável mas não intensa "convalescença", mas que como todas as operações nos deixa assim entre o esquisito, o piegas e o verdadeiramente abalado. Cheguei ao hospital meia hora antes da hora marcada (15.00)e entrei por volta das 15.30. Estava ao telefone com o nosso manager e fui salvo pelo gongo clínico. Designaram-me um pequeno cacifo e vesti-me com aquela roupa meio descartável dos hospitais. Compreendo e aceito sem espinhas os motivos higénicos desta farpela mas sem deixar de assinalar claro a total perda de personalidade que aquela toucazinha, o riscado do casaco apijamado e o chinelo que rompe à primeira unhada, trazem consigo. Brincos e anéis fora claro.

Mas, nada de grave, tal como o que ali me levava. Passemos aos timings:

- última refeição: 12.30
- entrada na secretaria da cirurgia ambulatória: 14.30
- entrada na ante-sala da cirurgia ambulatória: 15.30
- hora de operação: apx 18.30
- tempo de operação: apx 15-20 minutos

Sem quiexume algum porque sei que o Português tem a tendência para o hipocondriaco e para o protesto de bolso (por tudo e por nada) até porque duas destas horas de espera são perfeitamente justificáveis até pela ordem e quantidade de cirurgias que se têm de fazer nas duas ou três salas disponíveis. As duas outras horas não têm assim muita explicação e contribuem para o desespero ligeiro, para a fome que começa a apertar e, por vezes, as deambulações do pessoal auxiliar e dos enfermeiros traçam órbitas que nos testam a paciência e nos colocam questões sem final feliz.

Esta espera desespera foi tornada terrível porque o inevitável senhor mais velho,passada a primeira meia hora de espera,repetiu a cada cinco minutos que se ia embora, que não se admitia, que as enfermeiras (ele não lhe chamou as enfermeiras)não trabalhavam, rematando com perguntas directas (a mim que tentava não ouvir) se eu era calmo, concluindo com um seminal "o amigo disse que era uma pessoa calma, não foi?"- "foi..." " o amigo não é calmo, o amigo é um santo!" desculpe... com certeza não foi um elogio...Relatou-me todas as suas operações, quistos, rim, dores. Protestou. Andou de um lado para o outro.Passou à minha frente no fim. A ordem é de chegada. Quem não chora...mas não me importei, deveras.

Depois lá fui para dentro não sem antes ouvir um ringtone da Luna e ver que nas poucas revistas na rack se encontrava o nºda Visão que nos acompanhou a Belgrado, aquando da gravação dos videos da Scoprion e da Night Eternal. Estaria a alucinar? Seria da fome?

Entrei na sala, um bocado abalado da espera e de todo aquele aparato, Fiz-me á cama, levei a pica na testa e lá fui eu mesmo sem a reacção nervosa, ao cuidado da anestesia, pareceu-me tudo uma lobotomia, o penso na cabeça, a abertura para o alvo/lipoma à lâmina do bisturi, a sensação do corte, da excisão, do mexerem-me quase dentro da cabeça. Enfim, não foi agradável, sem ser doloroso, e sei que estou a ser piegas mas em nome da verdade. Senti-me mal, quebra de tensão-provavelmente-, levei logo a boca da enfermeira de serviço de que os homens são sempre muito mais susceptíveis que as mulheres "a estas coisas" (para quando o fim destas comparações? para mim são, foram e sempre serão o sexo forte)ok, manobra de munique (pelo menos o que ouvi)efectuada, cabeça para baixo, mais irrigação e lá continuei acordado durante aqueles longos minutos. O cirurgião puxa conversa: o que faz, ai é músico, o que toca e voilá chegamos aos Moonspell! O enfermeiro que assiste: o quê é o Fernando Ribeiro? E assim nos conhecemos numa mesa de operações.

A vida dá estas voltas invulgares mas recupero a minha identidade depois de um santal de pêra e dois pacotes de bolacha Maria dando uns autografos ao Emanuel (se a memória não me falha). Quando lá voltar para o resultado anatómico do corno (como já toda gente carinhosamente o tratava)a ver se não me esqueço do poster autografado!

Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

And justice for all (getting away with it)

Revolta pré-fim de semana talvez mas salta à vista de todos que a justiça no nosso país é apenas uma espécie de miragem habilidosa que alimenta uma casta de mentalidade e acção podre, contaminando e minando o ânimo de quem trabalha para o sonho sair da mente e caminhar alguns passos que seja.

Sei bem que a generalização, essa espécie de globalização preconceituosa e de utilidade individualista é um caminho perigoso, mas o estado da justiça em Portugal dá a esse perigo uma "justiça" inesperada. Na justiça Portuguesa pode-se generalizar à vontade e pessoalizar só um bocadinho olhando, com fraca mas necessária esperança, para todos os funcionários, magistrados e pessoas com alguma competência e vontade de mudar mas que em nome e consciência própria sabem que são poucos e, talvez, inglórios os seus esforços e a sua seriedade.

Este blog não é político: é humano. E não quero escrever para o Expresso nem sequer o título do post de hoje será uma referência a um grande disco dos Metallica. Escrevo como cidadão. Permito-me a isso sem obrigações estéticas.

Já passaram alguns amargos anos sobre outros mais bem amargos em que os Moonspell estiveram envolvidos em vários processos judiciais contra o nosso ex-baixista que, depois de abandonar a banda, registou à nossa revelia o nome da mesma, bem como, ainda enquanto elemento dos Moonspell, tinha registado música e letras quer do disco Irreligious, quer do Sin/Pecado, disco para o qual nem sequer contribuiu ou gravou qualquer parte. As coisas foram resolvidas após quase 8 anos por acordo extra-judicial e concerteza o visado terá a sua versão, tal como nós temos a nossa, a que ficou registada na única vez em que todos nos sentámos nos bancos de um tribunal, num dos episódios mais tristes da nossa vida enquanto homens e músicos.

Facto é que apesar de tudo nós sempre mantivemos as nossas prioridades e convicções e a nossa discrição. Afinal, quem nos segue, quer é ouvir e sentir música e mensagem e coube-nos a nós gastar o dinheiro, o bem-estar, a vida necessária a não desitirmos do nosso sonho e a não nos calarmos, sem reacção perante a injustiça e a traição. Foi o que fizemos, sofrendo muitas vezes, em silêncio deixando a nossa música continuar a soar.

De todo este longo e custoso processo destaco o facto de nunca nos termos sentado, como réus, num banco de tribunal e de todas as acções movidas contra nós (para nos impedir de tocar, sonhar, trabalhar e como tal, indirectamente, contra a "família" Moonspell)terem sido irremediavelmente perdidas pela outra parte e como tal nunca nos conseguiram parar! Durante este penoso processo existiram duas situações que ilustram na perfeição a generalização que assumo da justiça Portuguesa, seus meios e seus "protagonistas". Uma ocasião foi um inquérito com um magistrado a que tive de comparecer, uma espécie de pré-audiência para atestar da importância do caso e se chegaria ao tribunal. Fui atendido por um magistrado que tirava a caspa do cabelo com um lápis, com os olhos colados a um panfleto que anunciava um magusto próximo e que, propositadamente, se referia ao nome das nossas músicas de forma displicente, falhando o Inglês como se de uma língua menos nobre se tratasse. Aliás, a sua sobranceria era toda ela como se tratasse de um assunto menor chegando ao ponto de me perguntar o porque de tanta agitação e celeuma, afinal não se discutiam obras de Bethooven (deve ter sido o único compositor que lhe ocorreu)mas simplesmente canções de Rock and Roll. O escriba (Fernando como eu) digitava, incrédulo. Ao chegar a casa telefonei à nossa advogada para lhe dizer que esse juíz iria arquivar o caso. A Drª não acreditou em mim, ou não quis acreditar, já que numa simples audiência é quase impossível chegar a essa conclusão. O facto é que este foi mesmo para arquivo dando razão à generalização de quem tem uma ideia pré-feita, um fim de tarde mau e uma preguiça do tamanho do atraso justiceiro. Também não é preciso cursar Direito para saber ler as pessoas, tal como o fiz desde que me sentei à frente daquele ignorante doutor.

Após um outro esforço financeiro e legal, levamos este caso a tribunal, onde toda a nossa matéria foi dada como provada tendo o réu sido, no entanto, absolvido ao abrigo de um convénio com a lei alemã (mais suave que a nossa na mesma àrea de jurisprudência)tendo nós chegado ao absurdo de uma "vitória" onde tudo aquilo que pretendiamos para desbloquear a situação e recuperar o que nos era legítimo nos foi negado por quem nos tinha dado toda a razão.

A sobranceria continuava, afinal não eram mesmo obras de Beethoven, nem sequer um crimes relacionados com drogas, sexo ou finanças (mesmo que fossem, talvez o desfecho fosse o mesmo). Pois não, não era, era simplesmente a nossa vida, a nossa música, as nossas letras, o nosso nome, o nosso público, a nossa continuidade.

Dizem e bem que a lei é pura interpetação. Pois, para mim, falta humanidade e seriedade nessas leituras, é esse todo o problema. As faculdades e os vícios da justiça criam autómatos, mais fiéis ao espirito da técnica do que ao da lei pois quando não se decide tendo em vista o equilibrio e a justiça social, talvez então a anarquia e o niilismo não sejam conceitos menos disparatados como ganhar um caso e ficar com o mesmo problema.

E enquanto se puder mentir (ou desmemoriar), ofendendo a inteligência de todos, numa comissão de inquérito parlamentar e tudo ficar na mesma; enquanto se governar e decidir em tribunais eleitos a pensar em tudo menos em quem e no que se deve; enquanto não houver retorno, consequência ou castigo de quem erra, por leveza, nestas decisões então a justiça é só isso mesmo: habilidade para quem sabe empatar e dizer as "não-verdades" certas no tempo e no sítio certo; e miragem, à laia das palmeiras do Dubai, para quem tem dinheiro e conhecimentos (não adquiridos em sede de estudo) fazendo com o que o regime, em algumas coisas, mantenha a sua "antiguidade."

E quando é assim a revolta antes do fim de semana deve aparecer escrita.

post scriptum/curiosidade para desanuviar:

PRÉMIO DA CRÍTICA 2008
A Associação Portuguesa de Críticos de Teatro atribuiu o Prémio da Crítica, relativo ao ano de 2008, a João Brites pela criação de Saga - Ópera extravagante.O júri foi constituído por Ana Pais, Constança Carvalho Homem, João Carneiro, Maria Helena Serôdio e Rui Pina Coelho.O mesmo júri decidiu ainda atribuir três Menções Especiais, respectivamente, à actriz Carla Galvão, ao encenador Miguel Loureiro, e ao encenador Nuno Cardoso.A cerimónia da entrega destes prémios realiza-se no próximo dia 23 de Março (segunda-feira), no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz (Lisboa), às 19h, sendo livre a entrada. Para quem não sabe participei neste espectáculo na personagem Deus Pirata. Fico feliz por todos os que deram tudo neste espetáculo, elenco, o Bando, Banda da Armada, Jorge Salgueiro, a equipa técnica e todos quanto foram ver!!!

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

Metal com classe

São estes os artigos que prefiro escrever na verdade. Relacionar o Metal com algo mais lato e universal, e verificar, muito mais que academicamente, o poder e a inteligência deste som que na sua idealidade tem estas características de que fala este artigo. Passo a citar:

Metal com classe

A comparação entre Metal e Música Clássica, mais vincadamente a sua ambição sinfónica e operática, menos a minimal ou a puramente antiga, sempre foi algo de muito próximo. Usada não só para ilustrar as linhas em comum, a nível de composição, arranjo e postura, esta aproximação muitas vezes serviu a quem de causa, como manobra de credibilização do Metal e da sua escuta intensa por tanta gente no mundo. Por isso é que ao lado dos clássicos se arrumam outros clássicos, sendo que Wagner, Mozart, Sibelius, Beethoven, Prokofiev e Mussorgsky surgiam sempre nas preferências dos metaleiros que praticavam o culto de ouvir música clássica.

Existiu ainda e continua a existir uma saudável relação entre os dois mundos. De respeito e de contaminação positiva que originou portentos como os Apocalyptica ou os My Dying Bride, e que se solidificou em projectos ambiciosos de ópera Metal como no caso dos Queensryche em Operation Mindcrime, ou, mais recentemente dos Avantasia, com tantos bons, e tantos maus, exemplos no miolo temporal. Os Metallica, nome cimeiro do Metal, chegaram até a editar um disco inteiro, gravado com a Sinfónica de S.Francisco, dirigida por ninguém mais do que o malogrado Michael Kamen (entre outras coisas, consta do seu palmarés a composição e a condução da banda sonora original de filmes como Brazil-Terry Giliam-, ou License to kill, da saga 007) . Consta-se que S&M vendeu 2,5 milhões de cópias em todo o mundo, mostrando que a formula também resultava. Por cá e, questionado pelo Correio da Manhã, o maestro António Vitorino de Almeida dizia (sic) que era como misturar “chantily com costeletas de borrego”. O Metal era, obviamente, a carne…Enquanto isso, os Kiss, gravavam um espectáculo ao vivo em que toda a orquestra usava a maquilhagem que os caracterizou.

Nos aos 90 os Blasphemy (black metal Canadá) citavam A noite no Monte Calvo (Mussorgsky) como “a música mais maligna de sempre”; os Samael samplavam Ravel e o favorito Mussorgsky, os Therion compunham Theli e apostavam no registo das sopranos. A Filarmónica de Praga, encontra-se quase ao serviço do Metal, tendo trabalhado com bandas como Dimmu Borgir, Cradle of Filth ou Septic Flesh.

Chegados a esta nossa época, muito mais que um desprezo, sente-se ainda uma sobranceria que nos casos com cura se transforma em espanto e absorção da realidade estreita entre Metal e Clássico. Nos casos sem cura, os ouvidos e os olhos continuam fechados com o lacre do snobismo musical.

Mas temos razões para estar optimistas: o Teatro Nacional de S.Carlos, reduziu os preços dos bilhetes e aumentou o número de récitas, a Fundação Gulbenkian tem uma programação musical fabulosa este ano, a preços acessíveis. No Expresso de 8 de Setembro, o comentador político/social Henrique Raposo escreveu bem a propósito “E ao regressar à companhia do metal, volto a confirmar uma velha tese: a música clássica e o metal partilham a cadência (os tempos) e a trepidação (as intensidades). A orquestra dos penteadinhos e a banda dos guedelhudos não são dois planetas separados por uma galáxia de colcheias e semibreves. Muitos metaleiros desenvolvem um labor circular barroco; outros preferem a aceleração temporal do Romantismo. Para sentir isto, basta usar um cotonete para retirar os preconceitos dos tímpanos..


Mas a expressão mais perfeita que nos últimos tempos encontrei desta associação é o maestro Venezuelano Gustavo Dudamel. A forma como conduz a orquestra, a sua entrega, postura e proximidade, faz-nos um pouco sentir como se estivéssemos na presença de um verdadeiro frontman do Rock, que empresta uma imensa chama a uma mole sempre mais compenetrada e certinha. Não sei se o maestro Dudamel tem gostos roqueiros ou não, é provável que sim, já que o Heavy na América Latina continua a ser o estilo rock que mais gente abraça, mas a sua condução quase que inverte o título e o sentido deste artigo: também há Clássica com Metal.

Gustavo Dudamel é o resultado mais mediático do El sistema, um programa que formou milhares de jovens músicos na Venezuela, jovens esses que outrora tinham enveredado por uma vida de crime e violência e que a música, literalmente, salvou das ruas e deu um objectivo. Alguns desses músicos trabalham já em orquestras estrangeiras, ou permanecem na orquestra nacional Simon Bolívar que visitará o nosso país em Abril, na Gulbenkian. Gustavo Dudamel cancelou a sua primeira aparição este ano em Outubro por motivos de doença (o que me fez devolver os bilhetes que já tinha comprado) mas virá em Abril dirigir a sua orquestra de sempre: a do seu país. Existe ainda um DVD chamado The promise of Music que narra, na perfeição, esta história com final feliz.


O próximo artigo da Loud! seguirá esta linha,desta vez as relações com a Arte, algumas delas bem curiosas. Obrigado a todos pelos comentários e pelo encorajamento que me é importante. Como sabem eu modero os comentários e faço com que eles sigam as regras que aqui estipulei anteriormente. O Blog Spectator é um espaço aberto a contradição,opinião e discussão mas segundo moldes positivos. Aos haters e aos desabafos aconselho os foruns de conversação onde dão guarida a essa atitude, é como dizer quem não gosta de missa, não frequenta a igreja. Obrigado, bom fim-de-semana!

Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

Cuidado com Deus (ele anda ai)

Caros resistentes. Esta não é mais uma entrada a dizer que vou tentar voltar aqui. Ja cá estou.

2009 trouxe-me um ínicio de ano agitado a nível pessoal e quase que cumpri apenas os mínimos em diversas ocasiões que se apresentaram. Estes mínimos não estão mal: continuei a colaboração com a Loud!; gravei um projecto um pouco fora do meu baralho sónico, do qual vos darei conta certa a seu tempo,mas que me trouxe confiança e sobretudo amigos verdadeiros; concertos com muito calor e garra em Guimarães e Grécia; e muitos momentos que me aproximaram da vida que há em todos os minutos dos quais destaco o concerto acústico do Danny Cavanaugh em Braga em Janeiro passado. Depois uma pausa mais ou menos forçado para uma pequena intervenção cirúrgica que me permitiu reflectir, ver coisas, passear, ler muito e escrever ainda mais. E como escrever é bola de neve e sangue aqui estou a aplacar, para já, alguma da minha sede e fome.

Claro está que o objectivo de qualquer comunicação, até aos peixes, é reunir uma audiência, por isso se espalharem as novas e dizerem a um amigo que existem por aqui novas palavras e intenções, fico grato. Tão grato como por continuarem a ler estas palavras sem prazos. Digam também que o blog poético http://ocofreabertopoesia.blogspot.com/sofrerá idêntica intervenção.

Antes de vos contar a peripécia de hoje, remeto-vos para o arquivo se quiserem recordar algo do que aqui já se publicou e aguardarem também pela publicação neste blog das minhas últimas crónicas na Loud! Farei isso para a semana que vem em simultâneo com a escrita do meu artigo novo na mesma.

Subia eu pelo sol acima da Rua do Carmo quando passa por mim um individuo com umas coisas na mão, tipo uns panfletos, ou umas tiras de papel. Não sei se vos acontece, mas já desenvolvi uma espécie de radar para as pessoas que me vão de algo modo chatear. Tive essa intuição. Felizmente muitas vezes me engano, mas não tantas quanto gostaria, por um lado é bom porque me afasto da paranóia de ser público, perder o anonimato ok, mas nunca ceder à prisão de não andar de metro ou sair à rua num dia de chuva ou de Sol, como hoje; mas mau também porque acertar neste caso não constitui victória, antes pelo contrário.

Parece, então, que esse individuo também tinha um desses radares e sem mais nem ontem, sem bom dia ou boa tarde me disse: "Dá uma chance a Deus, pá! Deus existe pá", num tom pouco consentâneo com a "bondade" da mensagem. Ou talvez nem por isso se rebuscarmos toda a história da envagelização da humanidade que tem de tudo, menos de candura. Claro que o olhei nos olhos, mesmo que não goste na totalidade de fazer isso e nem identifique essa atitude somente com a coragem, e ele repetiu o mesmo oráculo. Sem parar (muito) porque nos fomos afastando, mas deu mesmo para ele ouvir, apenas lhe disse,: "Qual é o teu problema, pá?". Sei que não é muito para quem estudou Filosofia da Religião e leu Feuerbach mas resolveu o problema, diluindo-se o olhar de algum ódio por entre os raios de Sol e a multidão consumidora.

Mas o que fica é o atrevimento, não sei se me reconheceu como antropocentrista dedicado, ou pelo aspecto de quem não acredita "nessas coisas de Deus", mas o facto é que num país livre e laico, toda a gente tem direito à opinião ou, neste caso, à estupidez. Eu cá continuo a achar que se deve respeitar tanto a fé como a falta dela e que não se deve incomodar as pessoas na rua cheia de Sol com atitudes destas. O exercício da liberdade é feito com responsabilidade, quem o respeita, sabe disso. Bem sei que o exemplo "que vem de cima" de políticos e clérigos não é o melhor, mas, eu, pelo menos já parei de esperar por Godot, e sei que dessas fontes não há muito para aprender, na sua generalidade.

Por isso pá: eu não dou uma chance a Deus. Não acredito nele e estou no meu direito de o fazer em pleno, sem perigo de maior, nem o de me cair um raio em cima, desde a Revolução Francesa. Já me bastava as pessoas que não param nas passadeiras e que protestam quando uma pessoa lhes aponta isso; o taxista que parou o carro para discutir código comigo e que disse que só não me ofendia, bem...porque eu era grande; o "pedinte" punk que acha que por eu ser músico tenho de sustentar a sua escolha de preguiça anarca (eu cá acredito no trabalho, desculpa); só faltava o envagelizador dos Sábados de manhã que me aponta a existência de Deus como os putos que desafiam os outros para andar à porrada no recreio.

Tenham cuidado ateus, satanistas, ou pessoas ocupadas de si mesmas. Ele anda aí.