sábado, 31 de outubro de 2009

Tour USA parte 2

Semana 2

O nosso comandante Pedro Venâncio, aka Venice, diz-nos até já. Foi uma semana bem passada, desde Atlanta, um break na sua rotina dourada dos hotéis de cinco estrelas e de comida a horas, acolhido pelo sorriso mais sentido, quase adolescente do nosso amigo dos ares, que nos faz recuperar a magia daquele charme sujo do estilo de vida Rock, que, por vezes, esquecemos no meio da ansiedade de que as condições nos façam justiça. Ter um comandante da TAP a carregar as nossas caixas e instrumentos, a pôr as nossas águas e toalhas a jeito no palco, dormindo no back lounge do autocarro, a partilhar pizza fria e café, não é para todos. Significa que não há melhor status que a amizade. Obrigado Venice. See you in Frisco.

Há que nos determos sobre esta particularidade dos EUA. As condições são duras, a crise, aqui e ali, afecta algumas vendas de bilhetes mas há no fim deste arco-íris, por vezes negro, algo que reluz. Os já muitos amigos que temos nos EUA tornam a nossa vida mais fácil quase sempre, e equilibram o que de negativo possa haver nesta rotina de doidos. Ou o nosso amigo Tony Mecha, Brooklyn, NY, com os seus presentes e hospitalidade e verdadeira amizade, que vem de longe, dos seus tempos do mítico L’amour e amizade mútua Peter Steele e Type O, reforçada pelas últimas férias em Lisboa, connosco; não olvidando o bom americano, o Mark Creevy de Chicago que nos enche o autocarro de Samuel Adams, octoberfest, provavelmente a melhor cerveja do (novo) mundo e nos satisfaz o capricho das compras electrónicas; ao americo/brasileiro Robert Archie, também já com uma passagem em Lisboa no seu currículo, que para além de todo o vinho californiano e cabaz gourmet, ainda nos desenrasca junto ao consulado brasileiro em S.Francisco no calvário dos vistos temporários de entretainers, exigido burocraticamente pelas autoridades do pais irmão, não sem o seu quê de irónico já que estaremos por lá menos de 48 horas, diferente do facilitismo português em situações mais e por bastantes vezes menos idênticas. A amizade e a hospitalidade mima-nos e permite-nos momentos de qualidade no mais absurdo ou sujo dos sítios. Agradecidos!

Hoje é Seattle, que dispensa apresentações musicais. O clube é o Studio Seven/Showbox, mítico e sujo como quase todas as salas de aspecto bem grunge da sua capital e berço. Todas as salas tem bandas a tocar, a ensaiar, a dar no duro, umas mais acertadamente que outras mas criando um ambiente que nos coloca perante o privilégio de não sermos nós fechados no local de ensaio, mas sim a fechar a noite em palco, num dos concertos mais esperados da digressão, graças à estupenda reacção da última passagem por aqui em Novembro último com Danzig e Dimmu Borgir.

Até cá chegarmos estivemos três vezes no Canadá, com Vancouver a rivalizar em beleza, modernidade e adesão do público/tratamento da banda com as melhores salas Europeias e com a visita do aniversariante John Gonçalves (The Gift) companheiro destas e de outras andanças. Uma semana antes, Montreal, a confirmar sempre a regra de um dos melhores concertos das tours Norte Americanas, apesar do episódio, infelizmente not on tape, entre Don Aires e a polícia local.

O Aires tem as suas dificuldades com a porta do autocarro, em especial à noite, onde todos os gatos são pardos, e a seu quid pro quo com a entrada da sua casa sobre rodas, chama a atenção dos vizinhos que prontamente evocam a segurança máxima da cidade de Montreal. O vosso escriba já dorme o sono dos justos mas sente as pancadas nas paredes de alerta da policia. Mas, habituado às confusões da estrada, limito-me a virar a cabeça para o outro lado do travesseiro, deixando ao Pedro (Paixão) o papel de narrador, salvador da situação e testemunha da revista (de perna aberta) a Don Aires e ao seu diálogo com a autoridade que termina em boa disposição, iluminado pelas sirenes dos cinco carros da polícia que responderam à chamada.

Seguimos para o Mod Club em Toronto, um sítio fantástico, situado no quarteirão Português. Há Sumol (manga infelizmente) e água das Pedras no frigorifico do camarim e tudo adiciona a um dia não só muito produtivo e passado, à portuguesa, no café da esquina e uma noite bem passada, protegida pelos murais com versos camonianos e o seu busto em mármore, na entrada do clube. Os dois dias que se seguem são, esperadamente, os mais fracos e mais duros da tour, Cleveland numa Segunda Feira não é fácil e Detroit numa terça não destoa. Apesar do pitoresco Rock de Detroit, a crise nesta cidade que já foi a capital mundial do automóvel, sente-se nas ruas abandonadas e Cleveland é tranquilo sempre, para não dizer aborrecido. Chicago salva a semana e prova-se outra vez como a cidade talismã (com NY) para Moonspell e cuja fidelidade do público, a grande comunidade polaca desta cidade ajuda, será a maior do território Norte Americano, apesar da competição feroz da California cujas pré-vendas são as melhores da tour. E o clima primaveril já se deseja depois dos frios do Noroeste Americano.


O único senão de Chicago é o concerto ter lugar num sports bar daqueles dos filmes onde as pessoas se encontram para ver a final da Super Bowl (futebol americano) o que retira ambiente ao concerto embora a canja de galinha ao fim compense. O quarteirão de Kansas City, embora não Português,é de todo agradável e o Riot Room, pequeno mas com estilo de grande. O público hispânico toma conta do concerto, e nós temos de tomar conta deles, o entusiasmo tem destas coisas. O Mike tatua uma rosas roxas “across the street” e o Sábado à noite transforma as ruas nume festa de filmes, com carros conduzidos por afro-americanos, cheios de lcds laterais, a picarem-se nas estradas e miúdas bem vestidas mas mal bebidas a fazerem drama nas ruas, entre os três Portugueses (o nosso grupo) que comem os cachorros quentes e nocturnos antes de partirem rumo ao Velho Oeste, direcção Colorado.

O cabaret Cervantes, sic, revela-nos uma pequena mas verdadeiramente entusiasta audiência que fica até ao fim nesta noite fria de Domingo, passada entre lattes, skype e sestas. Também nos revela que nem todos os promotores tentam o seu máximo, e a promoção de 5 dias apenas não ajuda ao milagre apesar do concerto pequeno ter sabido a grande.

As próximas 24 horas, com pausas fisiológicas, são passadas numa viagem de doidos desde Denver a Vancouver, Canadá (vejam no mapa) adicionando mais umas boas centenas de quilómetros (2 milhares aliás, um Lisboa-Zurich num dia) à rodagem da banda, e os filmes repetidos no sinal de satélite (mais de 600 canais ao nosso dispor, medo…) que quebram a inflação de tédio que faz os quilómetros esticarem pela estrada do tempo fora.

A noite da viagem acaba num diner, com um pequeno-almoço de panquecas, ovos e bacon bem saboreado e o desejado (e prévio) banho quente nos hospitaleiros e enormes quatros do Holiday Inn Express.

Vem aí a Califórnia, vem aí o Texas. Vem aí a odisseia Latino Americana. Cacahuentes, el gran espirito del oso.

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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Tour USA parte 1

Semana 1

Arrancar de Lisboa com toda esta bagagem de concertos dos (Amália) Hoje, seguidos do warm up/see you soon no Hard Rock Café em Lisboa, é pesado, mas não me/nos faz pagar excesso. Os voos para Tampa são neutros, desprovidos do efeito Venice, mas chega-se bem à humidade quente da Florida. O autocarro está atrasado duas horas mas é a regra aceite por todos entre cigarros e cafés do Starbucks e as quase 24 horas acordados, com a calma que nos caracteriza. Afinal a estrada dura há 14 anos exactos e provavelmente metade destes foram passados à espera de alguma coisa.

A noite e a manhã são passadas dentro do autocarro numa estação de serviço e começam as hostilidades gastronómicas do all day breakfast, no festim possível de panquecas, ovos, bacon, e sentar cá fora, no lancil da estrada interior, à sombra deste terrível Sol. Em cinco minutos já está um vagabundo das estradas a polir as jantes do autocarro por 5 doláres cada uma, duas mulheres de mau aspecto (white trash) num carro enorme simulando convites para algo mais que uma pergunta inocente, e um rapaz backpacker a oferecer-nos o seu trabalho na estrada como técnico. A América é assim, empreendedora, a todos os níveis, mesmo ao mais baixo.

A tarde do concerto passa-se na esplanada entre PBR’s (Pabst Blue Ribbon, a melhor cerveja dos estates) e um charuto dominicano (devido ao embargo, não há cubanos). À noite a luta começa, os fãs aparecem e o feitiço faz-se.

Tampa, Florida; Atlanta, Georgia (recebidos pela grande Jarboe/Swans) num clube nas traseiras de uma casa assombrada, tipo a da saudosa Feira Popular o já mítico Jaxx, Springfield, com uma excelente e entusiasta casa, a compor o ambiente Roadhouse (Patrick Swayze, rip), e a noite concluída com Jagerbombs (vodka e jagermeister); e a passagem penosa pela Allentown, no estado da Pensilvânia, com os fãs de Moonspell e nós próprios a ter que esperarmos pela actuação de doze bandas, divididas em duas salas, antes de entrarmos em palco. Com um PA em mono (sem crossfade, mesmo mono, isto é, “só dava dum lado”) e arrancar aplausos aos fãs que resistiram todinhos lá, estóicos ao barulho e ao calor, premiados nós ainda com um cabaz de Halloween (miniaturas de bebidas, whisky, vodka, rum, copinhos de shot, caraemlos, chupas, bolachinhas, tudo no tema dark) que bom proveito nos fez.

Tudo isto a preparar-nos para uma noite gloriosa no BB Kings de New York City, sala cheia, nome nos néon de Times Square, catering de primeira linha, tudo o que Nova Iorque pode oferecer a uma banda Portuguesa que ponha, a todos o mesmo tempo, o brilho no olhar do jovem emigrante que trouxe a camisola da selecção vestida e veio ouvir a Alma Mater, ao hispânico que atravessou a cidade para ouvir a banda que já viu no seu país Natal, México, Colômbia ou ao fã nova Iorquino que compra o bilhete VIP a 50 dólares, vê o concerto sentado com um cocktail, recebe um poster autografado e respectiva palheta personalizada e conhece a banda pessoalmente. Status.

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sexta-feira, 17 de julho de 2009

"os criadores são meninos que andam a entregar recados dos Deuses."-José Mário Branco

Nunca usei, nem gosto da palavra bloggar, ou blogar. Parece-me uma meia palavra, assim como os blogs me parecem meias-coisas. Meias-casas; meias-ideias; meias-conclusões; meias-leituras. Este blog, com o seu ritmo próprio, refém voluntarioso do ritmo do meu trabalho e da minha mudança, também ele é meio. Metade de uma coluna mensal na Loud!, metade que me permite extravasar aquilo que não cabe no conceito e nos àvaros 3000 caracteres que me são dados com generosidade pelo editor.

Em todo o caso, blogo quase em directo duma conferência sobre Arte e Música. Ao meu lado encontra-se talvez a pessoa com o discurso e a mentalidade mais completa e profunda de toda a música Portuguesa, entendida como cena e manifestação. Essa pessoa é o José Mário Branco que me acabou de revelar na sua intervenção verdades observadas com a astúcia e a inteligência de quem sabe sentir e que sente o que sabe. Resta agradecer. Algumas ideias: o objecto artistico estar fora do sujeito e resultar de um encontro entre este e quem os ouve e a frase magnifica, até fora de contexto, "os criadores são meninos que andam a entregar recados dos Deuses."

Aliás,na minha suspeita opinião, a intervenção das pessoas ligadas à música teve o condão de aquecer as intervenções mais académicas e umbilicais das pessoas da Arte Contemporânea.

Para efeitos de consulta aqui vos transcrevo a minha intervenção escrita, perdendo-se a oralidade e a dinâmica da mesma:

"Como convidado tenho sempre o péssimo hábito (para além de ler as minhas intervenções) de não compreender totalmente na sua exactidão orgânica o tema e os títulos dos debates, conferências, comunicações. Não o faço por mal, nem quero de forma alguma demonstrar ingratidão ou desrespeito pelas pessoas que disponbilizaram tempo a pensar em como condensar as ideias a debater numa expressão ainda por cima tão sonante e interessante como a que hoje nos reúne aqui: politica, valor, criação.

Esta particularidade minha nasce de uma divisão básica que faço para a vida e para a Arte e que serve duplamente para quando a arte imita a vida ou a vida imita a arte. Aliás, a palavra criação é tão destes dois âmbitos, que talvez seja o melhor dos elos verbais possíveis entre elas. A divisão a que me refiro é entre o essencial e o acessório, o criativo e o comunicado, o profundo e o periférico. Nem sempre esta divisão tem um valor qualitativo de nobreza. Como artista nascido para aquilo que faço nos finais de 80, atravessando em tempo real algumas das modificações mais importantes para o paradigma da música e sua comunicação (gravar em fita, gravar em digital, internet, concertos) sei da importância do pensar global quando se é um artista e de como um artista moderno acumula funções (agente, divulgador, estratega). O que, na verdade, quero dizer é que neste trinómio a criação será sempre a causa, a politica que eu entendo como comunicação de influência, artística e comercial; e o valor enquanto resultado misto da criação e da comunicação será sempre sua consequência.

Defendo uma ideia porque não romântica da criação, de o criador se deixar inebriar pela observação e consequente transformação interior dessa observação em objecto criativo e comunicável. Digo isto porque muitas vezes leio entrevistas e desabafos de músicos em piloto automático com o seu conceito mas preocupados se a rádio irá passar os seus temas, ou se a televisão lhe abrirá as portas. Há espaço para essas preocupações legitimas desde que não retirem o espaço ao amor pela criação, amor que nos leva ao extremo dos cuidados e das intenções quasi épicas para com a nossa obra.

Como última ideia, gostaria até de defender que podemos aliar esse romantismo à comunicação da nossa obra (edições especiais, ideias, metal brunch) e não saindo do nosso conceito comunicado, fazer uma exposição comercial mais equilibrada com a nossa criação feita com a consciência de causa e não como acessório à divulgação de algo. É esta simplicidade que defendo para os Moonspell."


Até breve!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Show your ass, pack your stuff

A janela do nosso camarim em Durbuy, Bélgica, dá cá para fora para o palco "secundário" onde as tarefas dificeis dor Rock estão em plena actividade, no cruzamento entre as bancas de merchandise e bijuteria alternativa, o omnipresente hot dog e o cair do dia, excitando a noite.

Tocam, naquele presente momento, uma banda cujo nome esqueci. O estilo é aquele rock com um pé no betinho, Orange amplifier, com atitude punk, tipo o vocalista a descer até à meia centena de pessoas e dançar com elas, beijar a miúda gorda com os dreadlocks coloridos. Conseguida a reacção, volta ao palco, e brinca com guitarras, cabos, e mostra o cu, em apoteose Rock. Esta banda amanhã, provavelmente, estará a vender muitos discos na América e a aparecer, ao vivo, no Conen'o'Brien

Passado mais uma banda no palco principal (New Model Army, yeah!)e entra outra banda e esta sim lembro-me do nome Peter Pan Raging Speedhorn, rock, metal com muito Motorhead e atitude. Os nossos amigos dos quais não me lembro do nome, já arrumaram, já estão a distribuir flyers, a caminho da carrinha em direcção ao horizonte. Um caso, mais outro de Show your ass, pack your stuff.

E o que é bonito: é que nada há de decadente neste mostrar e arrumar. Cada vez me fascina mais o sonho do rock, o compromisso sobre o qual falei na última coluna da Loud!para o atingir, compromisso esse que não significa cedência mas, pelo contrário, a luta comprometida (ai, as palavras!!!)para conseguir, e, passo a passo, no verdadeiro sentido da estrada.

Por isso sei que, apesar dos pesadelos ocasioniais, eu sou nada mais que um privilegiado e trabalhar todos os dias e estar a compor todos os dias por muito estranho ou exagerado que pareça, é em absoluto normal. Privilégios não se discutem, honram-se.

É num e de um intervalo de um ensaio para o Hellfest (sim já tocámos milhares de vezes estas canções) que vos escrevo. Está um calor terrível, mas não se compara ao calor interior que é estar a noite toda acordado a descobrir novos mundos dentro do nosso.

sábado, 30 de maio de 2009

Federação Ibérica, não gracias!!!

De vez em quando, não há mesmo tempo dentro da cabeça e os sentimentos que a invadem também precisam de alguma protecção. Por isso apesar do meu coração estar noutro dos sítios, hoje prefiro falar de alguma coisa que não seja dele e aqui chegamos ao tema deste post "retrasado":

Federação Ibérica.

Eu não quero!

Muito se tem falado deste assunto nestes últimos tempos tendo pessoas que admiro tanto, como António Lobo Antunes, se pronunciado a favor desta ideia, tendo, obviamente a sua teia de razões. Não me pretendo arvorar em defensor da pátria mas o cansaço da nossa "impossibilidade" de país, cansa-me.

É um facto que a nossa classe política e decisória é, na sua maioria, medíocre e desperançada. Exemplos abundam, infestam as àguas. Como é possível, por exemplo, concorrer a um cargo de deputado Europeu em simultaneidade com um cargo autárquico ^(Elisa Ferreira, Porto)? Esta papice custa e o povo, anestesiado, não deixará de castigar a pouca vergonha e o mísero tacto. Como é possível que o CDS Nuno Melo vá ser enfiado em Bruxelas, quando é uma voz inteligente e carismática no parlamento? Outros exemplos haveria, mas apetece avançar. Estamos conversados e conformados, mas será Portugal só quem manda e quem esquece?

O meu historiador preferido (A.H.Oliveira Marques)diz que Portugal é um acidente geográfico. Que não existe, na Europa do seu tempo, não do nosso, um país com independência física perante um colosso (Espanha)como este nosso canto. Isso não me deprime, anima-me. Á boca pequena da História fala-se de razões. Conde D.Henrique de Borgonha, "ligações templárias", rouba o Porto (gal) a Espanha. D.Dinis, um século depois, concretiza o pinhal (madeira para as caravelas, parece um livro de Dan Brown, mas não é especulação pior ainda, para verificar de onde vem o trauma da nossa impossibilidade: da nossa radical origem. Porque somos país então? Por interesse visionário, por preseverança, porque Espanha deixa?

A Federação Ibérica é fruto do ressentimento que todos temos contra o nosso país e que não conseguimos resolver de modo algum. É o capitular, a desistência e ao assumir que o nosso país nunca, historicamente, teve muito sentido. É o gasóleo mais barato em Espanha, é o viver melhor, é a prestação e é a relva mais verde no quintal do nosso vizinho. Ás vezes parece-me que as pessoas que o dizem nunca foram à Espanha, melhor às "Espanhas" que os reis católicos forçaram juntas e que assobiam ao hino e não o acompanham em Bilbao. Portugal, até no exercício político de ser uma provincia Ibérica, nunca seria a Catalunha. Não por nos faltar identidade, mas por ela divergir, e como, dos nossos vizinhos geográficos. Já encontrei mais semelhanças com Gregos do que com Espanhóis.

Não levem para o caminho errado, adoro Espanha, porque é Espanha e pelo seu tamanho consegue, muitas vezes, ser mais nação que nós. Porque talvez ninguém questione tanto o seu direito a ser nação e a ser, manta de retalhos ou país, o direito a ser. É mau e terrível deixar o ressentimento falar. Sim, este é o país Cronos, devorador dos seus filhos, mas mesmo assim um país com voz própria e atitudes, mesmo deploráveis, que eu nunca encontrei em parte alguma do mundo. Lembra-me a África do maginfico livro de Obama Dreams from my father, a propósito de uma refeição na casa de uma historiadora no Quénia: "Olhem para a refeição de peixe que comemos (...) muita gente vos dirá que os Luo são um povo que só comia peixe, bem é verdade mas só os que viviam ao pé do lago(...) antes de assentarem, eram pastores como os Masai.(...)os quenianos orgulham-se do seu chá mas adquirimos este hábito dos Ingleses. Os nossos antepassados não beberiam tal coisa. E os molhos usados no peixe vêm da Índia ou da Indonésia. Vêem? Esta nesta refeição não encontrarão o autêntico que os jovens negros americanos buscam em África- embora a refeição seja genuinamente Africana."

É nesta autencidade, neste invisivel cheiro a terra de país, nesta mistura pós produzida numa nação que nos temos, hoje e sempre, de concentrar. Porque não estamos aqui por acaso, porque não gostamos do país só pelas suas qualidades mas que temos de aprender a lidar com força com as suas contigências e horrores, tal como fazemos, ou deviamos fazer com as pessoas. Porque não podemos deixar o ressentimento falar mais alto que nós. Porque usar um crachá de Portugal não é usar uma suástica (e mesmo que o fosse, a suástica era um símbolo de paz e movimento até ser invertido por homens, os nazis, que não tinham noção de nação mas sim de um mundo robótico e perversamente feito à imagem da sua fraqueza, eram políticos, não viviam nas ruas). Porque faz sentido termos chegado aqui e não podermos desistir e nos vendermos ao gasóleo mais barato, à ideia de uma Califórnia espanhola, à ideia de que os homens de cultura serão em Espanha melhor tratados.

Portugal pode ser um país de asnos mas será sempre um país. Leiam o final da Ilustre Cas de Ramires, que o Eça sabe melhor que todos nós.

Post scriptum: A única Ibéria que quero ver e ouvir são os IBÉRIA 6 de Junho na Moita no In Live Café. BE THERE!!!

sábado, 25 de abril de 2009

Alguns dias de dor para outros de Rock

É oficial. Estamos na estrada outra vez e a primeira semana foi lenta a passar. As mensagens sucedem-se no meu telefone: bem-vindo à Bélgica,à Alemanha,à Rep.Checa, à Polónia, à Bielorrúsia, à Polónia outra vez, à Eslováquia,à Roménia, a já nem sei onde na confusão dos dias com as noites e das noites com o dia.

Estou no meio de uma das músicas quando sinto. Em baixo, do lado esquerdo, região lombar, a dor. Aguda, ciática, como um pequeno e depois grande choque eléctrico, para cima nas costas, para baixo na perna. No meio do calor, por baixo das roupas, dos acessórios, da comunhão com o público de Varsóvia, uma pequena vertigem. No camarim, o contentamento de outra grande noite, quando se arrefece a preocupação. Sem nada à mão, apenas um creme. Passa outro dia, a dor aumenta but the show must go on. As noites são mais duras, as estradas do Leste impiedosas nas suas curvas e alturas.

A minha primeira sessão de fisioterapia/massagem é surreal. Passa-se na Eslováquia, uma massagista de meia idade, loura oxigenada, tipo mulher almodovar mas de Leste. Num estúdio chamado Relax, mobilado a Ikea, contrastando com cor e o estilo próprio, já familiar na nossas mentes, do rigor prático do edificio, ginásio onde tocamos em Bratislava. Surreal porque eu sem falar uma palavra de checo, ela sem falar uma palavra de Inglês, exemplificando como eu me devia virar, durante uma hora e tal, até que finaliza e o baterista de Cradle (Martin) serve de tradutor para as más noticias: um disco da coluna desviado, prisão do nervo ciático. Chamadas sucedem-se e opiniões também: chamamos um quiropata, metemos uma cinta, estalamos as costas. A decisão vem de mim: fico assim, faço a fisioterapia possível, as massagens possíveis e avanço com uma consulta no especialista em Portugal, raios X e depois sim a terapia que tiver de seguir. Agradeço à senhora que me oferece a massagem e uma cinta fabulosa, que me endireita e põe no sítio, roubando espaço à postura errada e permitindo passar os concertos a fazer, com alguma confessa cautela, aquilo que sinto, que é reagir ao nosso som, às suas ondas, sombras e luzes como se a dor não estivesse lá e não se libertasse até, traiçoeira, durante o sono, fazendo-me dar um grito mudo quando posição no beliche é outra ou quando a confiança dos cremes, dos alongamentos e massagens do Mike, me possibilita fruir a tour outra vez.

Passou quase uma semana, a dor está lá à espera. Ontem em Belgrado, Sérvia, outra massagem, suave, melhores noticias, um tempo espetacular, um concerto intenso. Volta o Rock com a dor mas estou preparado para engolir quilómetros, dar gritos mudos, beber pouco, andar muito embora mais devagar, sabendo que a dor nos acorda para a realidade dos nossos corpos limitados mas que também torna cada concerto, cada conquista, cada "a sério? tens isso nas costas não reparei em nada!" mais saboroso, ajudando a pender a balança e o equilibrio de forma mais justa, tanto para as noites e dias de Rock, como para a sua irmã Dor.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A crise dá trabalho

Gosto de escrever aqui quando estou exausto e mais ou menos no fim das forças, farto de lutar mais contra mentalidades do que contra improbabilidades, porque esse cansaço é como que uma certeza, uma garantia e uma assinatura. Uma revelação se quiserem que tanto me frustra como me anima, um pouco, salvem-se as comparações, como saber do paradeiro de uma pessoa desaparecida mesmo quando a nótícia não é a melhor. Daqui a pouco começa o descanso, cai o Sol, mas nesse mesmo descanso a inquietação e uma certa vigilância subsistem porque essenciais a quem quer viver da melhor das formas possíveis e, por isso, trabalhar para o garantir.

Notícias públicas e privadas mas do foro profissional conduzem-me ao assunto de hoje. Leio no Correio da Manhã que pelo menos um milhar de artistas recorrem ao subsidio de emergência da SPA (Sociedade Portuguesa de Autores, da qual não sou membro), 70% músicos. À noticia acrescentam-se declarações dramáticas do seu Presidente, José Jorge Letria. Do outro lado, na minha inbox, faltam as respostas que quero e eu, teimoso, persigo-as mas sem muito resultados, queimando desde o plano A até ao plano Z e descobrindo, irritado, que nem todo depende das minhas horas ao ecrã (escrever na luz, como diz o meu amigo JL Peixoto, sem dúvida, feliz por escrever e esperar coisas bem melhores)e que o mar de Sines lá fora terá de esperar pelo mail, pela chamada, pela urgência dos que não têm urgência. Depois entra o pensamento: mas será que sou eu que não consigo desligar. Bem, já lá vamos.O tempo voa.

Sempre me chamou a atenção o factor humano das crises. Apesar de tantas as perspectivas a considerar, a verdade é que somos vítimas e culpados da mesma. Vítimas porque vivemos as consequências directas, não os políticos que as causam pois até o seu andar e o seu comer é pago por nós, por isso políticos a falar da crise é como eu a falar da fome em África depois de ter almoçado há meras horas; e culpados porque não sabemos imaginar as saídas apenas lamentando a falta delas.

Vejo uma mantinha em promoção na montra de uma loja de brindes e louças e entro na loja para tentar comprá-la. Cumprimento os empregados e peço o que quero. Dizem-me que está ali em baixo, mas eu não encontro aquela que quero, aquele padrão. Está na montra, podem ir buscá-la, por favor? Não, dá muito trabalho tirar aquela (a mais gira, a que eu quero!!!) da montra. Que faço eu? Viro as costas, mãos vazias, menos dinheiro na caixa da loja, boa tarde, a rua outra vez.

Ainda no artigo do CM, procura revelar-se uma realidade dramática. Como a compreendo! Entre 1999 e 2000, pouco mais do que 50 euros tinha para me "governar" após as contas pagas, mas em vez de recorrer ao subsídio, recorri à poupança extrema e à imaginação voluntariosa, chateando meio mundo pela subsistência, minha e do meu projecto, conseguindo marcar 3 concertos em Portugal logo depois de o nosso agente Inglês me ter dito que era impossível. Tudo bem, não foi.

É verdade que a ignorância dos nossos governantes é aguda. Que lhes passa ao lado e pela frente o fenómeno do turismo cultural e que preferm fazer um novo Museu dos Coches em vez de dinamizarem opções menos caras e mais interessantes para todos os backpackers da cultura que enchem aos magotes a Saatchi em Londres (com pessoal alternativo a distribuir flyers pelas ruas como um produto, promoção). Quando despejamos as amostras de perfume e os flyers dos restaurantes indianos na reciclagem, aperta-se-me o coração, nem um flyer de um museu, lá distantes, no pedestal, tipo manta na montra da loja.

Mas, e sempre mas, das primeiras coisas que passa pela cabeça dos nossos artistas é o subsidio, a ajuda e, como artista, tenho sempre dúvidas, que infelizmente, quase sempre se confirmam, se esses nossos artistas, já esgotaram todas as hipóteses, antes de estender a mão. Quer-me parecer que não. E porquê? Porque é mais dificil. Não vou falar do teatro aqui. É uma arte que respeito muito e à qual entendo o mecenato, nem sempre bem distribuido e nem sempre bem gasto, mas falo sobre o pudor quase generalizado em juntar a essa arte uma lógica comercial, que é boa no sentido do retorno e da fidelização de público que vindo, legitima e faz da lógica da distância artista-objecto-público aquilo que ela é: trapeira, trapaceira, absurda. Quando se recebe o mesmo todos os anos não interessa na realidade se se tem duas, vinte ou duzentas pessoas num espetáculo.

Na música, essas unidades contam a valer. Por isso, antes da ajuda, existe a fase da invenção, pensar em nós enquanto criadores e na multiplicidade dessas criações e as saídas que elas nos possam dar para a nossa subsistência. Atenção, não falo de fazer tudo, mas muito mais de procurar o equilibrio entre a arte e a sua venda, percorrendo evidências e nebulosas, sabendo que somos o nosso próprio produto e vendedor e fazê-lo com brio, distinção e ver as coisas a acontecerem.

No caso dos Moonspell eu sou letrista e cantor mas faço produção executiva, merchandise, promoção, marketing, arranjo vistos para a Bielorússia quando já toda a gente desistiu, e não porque sou melhor que os , mas porque tento muitas vezes.

É essa a nuance: acho verdadeiramente que o mundo dos artistas não se divide só em qualidade e não qualidade mas que o factor do trabalho é quase tão determinante quanto o do talento e da paciência, saber percorrer caminhos, mesmo de rastos e não dar logo a mão ao primeiro estranho que nos aparece.

Este subsidio de emergência tem aliás uma lógica perversa: se é retirado dos direitos de autor e pressupondo que esses artistas não tenho dinheiro para viver, já não os geram, não será perigoso gastar reservas de outros artistas que os geram? Quando for para pagar a estes, o que acontecerá?

Este post resulta também de alguma observação empírica. Sempre fui o artista que chegava de Fiesta com 80.000 discos vendidos a encontros e concertos onde artistas com vendas e rendimentos menores chegavam com carros de alta cilindrada. Sempre vivi num T1 modesto perante as vivendas. Esperei o meu tempo, a minha estabilidade e consegui dar passos certos, no carro, na habitação, na vida e não via essa sensatez em praticamente ninguém. A crise também é resultado dessa inconsciência. Disso não tenho dúvidas. A necessidade aguça o engenho.

Agora vou esperar que as férias dos outros terminem, que os cerebros saiam da geleia, e que o tempo que perdi hoje não seja adicionado ao tempo em que os outros preguiçaram.

A luta continua e nós temos a chave única. Não se esqueçam dela.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Megafest

Fez ontem exactamente uma semana que aconteceu o Priestfest no Pavilhão Atlântico, como uma espécie de aquecimento para o Verão que se avizinha, com visitas promissoras (Slipknot, Lamb of God, Mastodon), e regressos que temos de esperar para ver como correm, bem como algumas presenças vibrantes em cartazes mais Underground que se já fidelizaram não tantos como desejariam pelo menos em sede própria e com alguma justiça, vão crescendo aos poucos. Como disse, o Verão aproxima-se e vão-se anunciando os cartazes, que para além da costumeira demora em se definirem ainda não chegam, e é verdade, ao faustoso cartaz de um Hellfest ou de um Metalway (este ano, para já, superiores ao Wacken) para quem deseja mais e mais, ou ao cartazes mais sólidos de festivais Europeus que se consolidam sem muitas queixas ano após ano, isto para os festivais mais pequenos.

É natural, e toda a gente sabe, que estamos em Portugal mas o que escapa, por muitas vezes, e quem viaja como amante de música ou “em trabalho” não me desmentirá que assistimos por vezes , entre portas, ao fenómeno estranho de que cartazes bem mais fracos e baratos do que alguns cartazes Europeus reúnem muito mais gente à sua volta (e não só exponencialmente) do que o Hellfest em que todas as bandas tocam (é difícil dizer uma que não estará lá este ano!) ou no Metalway, na vizinha Espanha, desenhados para as 25.000 ou 40.000 pessoas e que comparados com o cartaz do Alive! (um dia de Metal) proporcionalmente teriam mais gente, mas não! É um fenómeno curioso este mas apesar da crise as pessoas vão, as 6000 e tal pessoas do Priestfest foram das maiores audiências desta tour, e dá que pensar como se comportariam os fãs de Metal em Portugal se lhes servissem o banquete do Hellfest em vez da refeição sólida mas só de um dia do Rock in Rio (50.000 pessoas), Alive (30.000) ou SBSR (15.000 com Maiden, mais gente ainda com Metallica).

A tour Cradle of Filth/Moonspell/Turisas também não passará por cá. Ao que sei os promotores consideram cara e arriscada, a tour deste estilo que mais esgotou salas na Europa o ano passado (a outra foi Opeth, apesar de serem salas mais pequenas a que estes tocavam) e tão bom resultado teve que merece uma segunda parte passando por países (como Bielorussia, Rep.Checa, Itália, Sérvia, Roménia Eslováquia,etc.) que vivem com bem mais dificuldades que Portugal mas que mesmo assim, assumem o risco de nos ter lá e ao que se sabe com sucesso já nas pré-vendas. A última vez que Cradle e Moon tocaram juntos em Portugal, traduziu-se apenas em dois Coliseus cheios, coisa insuficiente para todos os promotores que, ao que parece, continuam a preferir o lamento ao risco, os festivais por toda a parte com 250 a 400 pessoas a assistirem, indiferentes à ideia de se juntarem uns poucos e fazerem algo maior, indiferentes ao fenómeno da adição de todas essas pessoas num evento único que, muita gente já me confessou, em pessoa, fazer falta a Portugal porque indo a Madrid esta tour, os Portugueses se sentem esquecidos…Mais fome mesmo que fartura sem o retorno necessário.

Mas voltando à noite da semana passada. Devo atalhar por dizer que saí todas as noites nessa semana. Segunda, copos tranquilos com a crew e a manager dos Megadeth (de tarde o Ricardo e o Mike mostravam as delicias culinárias e paisagísticas de Cascais a Dave Mustaine e Chuck Billy e seus pares, Ricardo incrédulo por no seu carro se sentarem estes dois últimos); Terça, Atlântico; Quarta, Hard Rock (esgotado pela primeira vez!); Quinta, família; Sexta, Metropolis; Sábado, Apocalypse e amigos. Ufff. Daí o meu “retiro” na bela e completa cidade de Sines (de onde escrevo) que cada vez me encanta mais, pela beleza, pela comida, pelos amigos, pela mistura industrial com litoral, por ser a casa do nosso Cirque de Soleil (Teatro do Mar) e por tudo o mais que só sentido, contado não tem graça.

Mas a semana passada, vi um concerto belíssimo dos Testament, com o som um pouco faltoso, típico da primeira banda de um festival, mas com uma garra e um contacto com o público que mais que compensaram esta ou aquela fugida do PA, e claro, não desfazendo em ninguém, com Paul Bostaph, portentoso como nenhum outro. No fim, vi Priest, oscilante, excelente som, um bocadinho a mais de theatrics , alguns momentos mortos com os temas mais recentes, muitos delays na Voz, mas, para além disso, toda a cultura Metal (até demais, em certos pontos) mas digno de ver e aplaudir, sempre.

E não, não me esqueci dos Megadeth. Nem podia já que a noite foi deles. Um metaleiro gosta, sempre, de coisas em grande, mesmo que o pé fuja para a bota. E os Megadeth foram exímios em dar um concerto BIG, tipo Monsters of Rock, mesmo em recinto fechado. Tudo contribuiu para isso: o palco simples e magnético, com a rack de bateria central , a parede de Marshalls, o pano só com o logotipo. As cores, pouco mais que o preto e o metalizado, muito, muito clean. O alinhamento, a pose, até um bocadinho a mais, os solos do novo guitarrista (Chris Broderick) que tão boa conta deu deles, os ventos nos cabelos de Dave Mustaine, a pouca mas eficaz conversa do mesmo, o momento altíssimo de quando tudo pára e segundos depois se canta o refrão do A tout le monde, o trautear gigantesco do riff de Symphony, um dos melhores de sempre do Metal.

Enfim, tudo foi grande, até mais BIG que grande. Aquele sentido de palco, distante mas próximo, sempre a puxar, de quem já foi talvez uma das maiores figuras do Metal e que não se esqueceu de tal. E com concertos destes não deixará ninguém esquecê-lo.

Tenho dito, não foi BIG, foi MEGA.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Falhar melhor

Ontem foi um dia de alguma raiva pequenina, sentimento que é comum nestes e noutros dias que correram e que nos faz a dizer à boca pequena ou grande o quanto o nosso país falha, coitado do país, essa ideia e local e vibração, que embora defina os Portugueses, não os pode animar ao pormenor, na relação directa entre o pai que educa e forma e o filho que faz disso o que pode e o que quer.

Não vale a pena estar a referir o atendimento negligente, o rol enrolado de desculpas, o factor humano da crise, cada vez mais pronunciado, a ausência de ideias e com ela a ausência de esperança. O que vale a pena mencionar é o que não é feito e isso passa mais pelo que não foi feito, não em termos de acção, mas porventura de intenção, na relação directa daquilo que fica por dizer numa conversa, mas que soa tão alto; naquilo que fica por escrever num livro, mas que nos marca os sentidos; naquilo que fica por filmar num filme, mas que é o melhor dos presentes à retina.

Foi Samuel Beckett, dramaturgo e escritor Irlandês (Nobel em 1969)que cunhou esta expressão falhar melhor que no teatro justifica as quedas sucessivas, as brancas choradas pela noite dentro, o enfiar da personagem na confusão da pele e da alma, a maldição de ir fazendo sem o resultado que se espera. O teatro imita a vida, é como um concentrado da mesma, os grandes autores lambiam o dorso da vida de cima abaixo, pela frente, por trás e apresentavam-nos, mesmo na negação da mesma e da sua arte, essa vida em palco, na rua, nos bares, nas caves clandestinas. As famílias russas de Tchekóv, os loucos de Danill Harmas,o primeiro suspiro de Beckett, as zangas animalescas de poder e sexo de Sófocles, que são elas senão documentos da mais pura das vidas: a que se vive em pleno sol ou absoluta treva?

Voltando à terra ingrata, não sei se vos acontece mas o que é deprimente é mesmo a consciência absoluta de que não fazemos mais porque não queremos, que não apanhamos a caneta do chão porque nos temos de dobrar mais uns centímetros, que passamos mais uma hora na cama em vez de nos levantarmos para estarmos na vida activa, que embora trabalhemos numa empresa que representa clientes façamos de conta que o problema não é nosso, que a representação é uma miragem burocrática, que o conseguir dá muito trabalho e que esse muito trabalho é, muito mais do que queremos admitir, muitas vezes apenas um sorriso, apenas levantarmos o cu da cadeira, menos uns minutos de televisão, menos um clique à direita.

Porque cada vez mais observo e penso e sinto: a crise em Portugal é só uma questão de segundos, de centímetros, do brio magoado de um país em berço de ouro negro dos escravos, de pessoas preocupadas em deixarem passar as horas através do nada quando as podiam preencher com o tudo.

Para a semana temos os Priest para lamber as feridas com electricidade. Até lá não é contar os minutos, mas fazer com que estes contem.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Haja Saúde

Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higéia e Panacéia, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue:... (ínicio do Juramento de Hipocrates)

Da Justiça para a Saúde, este blog arrisca-se a tornar-se outro muro de lamentações e contra-resposta,por isso há que dar a volta e contar uma história bem mais agradavel e curiosa com o seu quê de lição e tomada de posição própria, como não podia deixar de ser...

Fui operado a um lipoma na testa. Nada de especial, uma pequena cirurgia plástica com a sua razoável mas não intensa "convalescença", mas que como todas as operações nos deixa assim entre o esquisito, o piegas e o verdadeiramente abalado. Cheguei ao hospital meia hora antes da hora marcada (15.00)e entrei por volta das 15.30. Estava ao telefone com o nosso manager e fui salvo pelo gongo clínico. Designaram-me um pequeno cacifo e vesti-me com aquela roupa meio descartável dos hospitais. Compreendo e aceito sem espinhas os motivos higénicos desta farpela mas sem deixar de assinalar claro a total perda de personalidade que aquela toucazinha, o riscado do casaco apijamado e o chinelo que rompe à primeira unhada, trazem consigo. Brincos e anéis fora claro.

Mas, nada de grave, tal como o que ali me levava. Passemos aos timings:

- última refeição: 12.30
- entrada na secretaria da cirurgia ambulatória: 14.30
- entrada na ante-sala da cirurgia ambulatória: 15.30
- hora de operação: apx 18.30
- tempo de operação: apx 15-20 minutos

Sem quiexume algum porque sei que o Português tem a tendência para o hipocondriaco e para o protesto de bolso (por tudo e por nada) até porque duas destas horas de espera são perfeitamente justificáveis até pela ordem e quantidade de cirurgias que se têm de fazer nas duas ou três salas disponíveis. As duas outras horas não têm assim muita explicação e contribuem para o desespero ligeiro, para a fome que começa a apertar e, por vezes, as deambulações do pessoal auxiliar e dos enfermeiros traçam órbitas que nos testam a paciência e nos colocam questões sem final feliz.

Esta espera desespera foi tornada terrível porque o inevitável senhor mais velho,passada a primeira meia hora de espera,repetiu a cada cinco minutos que se ia embora, que não se admitia, que as enfermeiras (ele não lhe chamou as enfermeiras)não trabalhavam, rematando com perguntas directas (a mim que tentava não ouvir) se eu era calmo, concluindo com um seminal "o amigo disse que era uma pessoa calma, não foi?"- "foi..." " o amigo não é calmo, o amigo é um santo!" desculpe... com certeza não foi um elogio...Relatou-me todas as suas operações, quistos, rim, dores. Protestou. Andou de um lado para o outro.Passou à minha frente no fim. A ordem é de chegada. Quem não chora...mas não me importei, deveras.

Depois lá fui para dentro não sem antes ouvir um ringtone da Luna e ver que nas poucas revistas na rack se encontrava o nºda Visão que nos acompanhou a Belgrado, aquando da gravação dos videos da Scoprion e da Night Eternal. Estaria a alucinar? Seria da fome?

Entrei na sala, um bocado abalado da espera e de todo aquele aparato, Fiz-me á cama, levei a pica na testa e lá fui eu mesmo sem a reacção nervosa, ao cuidado da anestesia, pareceu-me tudo uma lobotomia, o penso na cabeça, a abertura para o alvo/lipoma à lâmina do bisturi, a sensação do corte, da excisão, do mexerem-me quase dentro da cabeça. Enfim, não foi agradável, sem ser doloroso, e sei que estou a ser piegas mas em nome da verdade. Senti-me mal, quebra de tensão-provavelmente-, levei logo a boca da enfermeira de serviço de que os homens são sempre muito mais susceptíveis que as mulheres "a estas coisas" (para quando o fim destas comparações? para mim são, foram e sempre serão o sexo forte)ok, manobra de munique (pelo menos o que ouvi)efectuada, cabeça para baixo, mais irrigação e lá continuei acordado durante aqueles longos minutos. O cirurgião puxa conversa: o que faz, ai é músico, o que toca e voilá chegamos aos Moonspell! O enfermeiro que assiste: o quê é o Fernando Ribeiro? E assim nos conhecemos numa mesa de operações.

A vida dá estas voltas invulgares mas recupero a minha identidade depois de um santal de pêra e dois pacotes de bolacha Maria dando uns autografos ao Emanuel (se a memória não me falha). Quando lá voltar para o resultado anatómico do corno (como já toda gente carinhosamente o tratava)a ver se não me esqueço do poster autografado!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

And justice for all (getting away with it)

Revolta pré-fim de semana talvez mas salta à vista de todos que a justiça no nosso país é apenas uma espécie de miragem habilidosa que alimenta uma casta de mentalidade e acção podre, contaminando e minando o ânimo de quem trabalha para o sonho sair da mente e caminhar alguns passos que seja.

Sei bem que a generalização, essa espécie de globalização preconceituosa e de utilidade individualista é um caminho perigoso, mas o estado da justiça em Portugal dá a esse perigo uma "justiça" inesperada. Na justiça Portuguesa pode-se generalizar à vontade e pessoalizar só um bocadinho olhando, com fraca mas necessária esperança, para todos os funcionários, magistrados e pessoas com alguma competência e vontade de mudar mas que em nome e consciência própria sabem que são poucos e, talvez, inglórios os seus esforços e a sua seriedade.

Este blog não é político: é humano. E não quero escrever para o Expresso nem sequer o título do post de hoje será uma referência a um grande disco dos Metallica. Escrevo como cidadão. Permito-me a isso sem obrigações estéticas.

Já passaram alguns amargos anos sobre outros mais bem amargos em que os Moonspell estiveram envolvidos em vários processos judiciais contra o nosso ex-baixista que, depois de abandonar a banda, registou à nossa revelia o nome da mesma, bem como, ainda enquanto elemento dos Moonspell, tinha registado música e letras quer do disco Irreligious, quer do Sin/Pecado, disco para o qual nem sequer contribuiu ou gravou qualquer parte. As coisas foram resolvidas após quase 8 anos por acordo extra-judicial e concerteza o visado terá a sua versão, tal como nós temos a nossa, a que ficou registada na única vez em que todos nos sentámos nos bancos de um tribunal, num dos episódios mais tristes da nossa vida enquanto homens e músicos.

Facto é que apesar de tudo nós sempre mantivemos as nossas prioridades e convicções e a nossa discrição. Afinal, quem nos segue, quer é ouvir e sentir música e mensagem e coube-nos a nós gastar o dinheiro, o bem-estar, a vida necessária a não desitirmos do nosso sonho e a não nos calarmos, sem reacção perante a injustiça e a traição. Foi o que fizemos, sofrendo muitas vezes, em silêncio deixando a nossa música continuar a soar.

De todo este longo e custoso processo destaco o facto de nunca nos termos sentado, como réus, num banco de tribunal e de todas as acções movidas contra nós (para nos impedir de tocar, sonhar, trabalhar e como tal, indirectamente, contra a "família" Moonspell)terem sido irremediavelmente perdidas pela outra parte e como tal nunca nos conseguiram parar! Durante este penoso processo existiram duas situações que ilustram na perfeição a generalização que assumo da justiça Portuguesa, seus meios e seus "protagonistas". Uma ocasião foi um inquérito com um magistrado a que tive de comparecer, uma espécie de pré-audiência para atestar da importância do caso e se chegaria ao tribunal. Fui atendido por um magistrado que tirava a caspa do cabelo com um lápis, com os olhos colados a um panfleto que anunciava um magusto próximo e que, propositadamente, se referia ao nome das nossas músicas de forma displicente, falhando o Inglês como se de uma língua menos nobre se tratasse. Aliás, a sua sobranceria era toda ela como se tratasse de um assunto menor chegando ao ponto de me perguntar o porque de tanta agitação e celeuma, afinal não se discutiam obras de Bethooven (deve ter sido o único compositor que lhe ocorreu)mas simplesmente canções de Rock and Roll. O escriba (Fernando como eu) digitava, incrédulo. Ao chegar a casa telefonei à nossa advogada para lhe dizer que esse juíz iria arquivar o caso. A Drª não acreditou em mim, ou não quis acreditar, já que numa simples audiência é quase impossível chegar a essa conclusão. O facto é que este foi mesmo para arquivo dando razão à generalização de quem tem uma ideia pré-feita, um fim de tarde mau e uma preguiça do tamanho do atraso justiceiro. Também não é preciso cursar Direito para saber ler as pessoas, tal como o fiz desde que me sentei à frente daquele ignorante doutor.

Após um outro esforço financeiro e legal, levamos este caso a tribunal, onde toda a nossa matéria foi dada como provada tendo o réu sido, no entanto, absolvido ao abrigo de um convénio com a lei alemã (mais suave que a nossa na mesma àrea de jurisprudência)tendo nós chegado ao absurdo de uma "vitória" onde tudo aquilo que pretendiamos para desbloquear a situação e recuperar o que nos era legítimo nos foi negado por quem nos tinha dado toda a razão.

A sobranceria continuava, afinal não eram mesmo obras de Beethoven, nem sequer um crimes relacionados com drogas, sexo ou finanças (mesmo que fossem, talvez o desfecho fosse o mesmo). Pois não, não era, era simplesmente a nossa vida, a nossa música, as nossas letras, o nosso nome, o nosso público, a nossa continuidade.

Dizem e bem que a lei é pura interpetação. Pois, para mim, falta humanidade e seriedade nessas leituras, é esse todo o problema. As faculdades e os vícios da justiça criam autómatos, mais fiéis ao espirito da técnica do que ao da lei pois quando não se decide tendo em vista o equilibrio e a justiça social, talvez então a anarquia e o niilismo não sejam conceitos menos disparatados como ganhar um caso e ficar com o mesmo problema.

E enquanto se puder mentir (ou desmemoriar), ofendendo a inteligência de todos, numa comissão de inquérito parlamentar e tudo ficar na mesma; enquanto se governar e decidir em tribunais eleitos a pensar em tudo menos em quem e no que se deve; enquanto não houver retorno, consequência ou castigo de quem erra, por leveza, nestas decisões então a justiça é só isso mesmo: habilidade para quem sabe empatar e dizer as "não-verdades" certas no tempo e no sítio certo; e miragem, à laia das palmeiras do Dubai, para quem tem dinheiro e conhecimentos (não adquiridos em sede de estudo) fazendo com o que o regime, em algumas coisas, mantenha a sua "antiguidade."

E quando é assim a revolta antes do fim de semana deve aparecer escrita.

post scriptum/curiosidade para desanuviar:

PRÉMIO DA CRÍTICA 2008
A Associação Portuguesa de Críticos de Teatro atribuiu o Prémio da Crítica, relativo ao ano de 2008, a João Brites pela criação de Saga - Ópera extravagante.O júri foi constituído por Ana Pais, Constança Carvalho Homem, João Carneiro, Maria Helena Serôdio e Rui Pina Coelho.O mesmo júri decidiu ainda atribuir três Menções Especiais, respectivamente, à actriz Carla Galvão, ao encenador Miguel Loureiro, e ao encenador Nuno Cardoso.A cerimónia da entrega destes prémios realiza-se no próximo dia 23 de Março (segunda-feira), no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz (Lisboa), às 19h, sendo livre a entrada. Para quem não sabe participei neste espectáculo na personagem Deus Pirata. Fico feliz por todos os que deram tudo neste espetáculo, elenco, o Bando, Banda da Armada, Jorge Salgueiro, a equipa técnica e todos quanto foram ver!!!