sexta-feira, 17 de julho de 2009

"os criadores são meninos que andam a entregar recados dos Deuses."-José Mário Branco

Nunca usei, nem gosto da palavra bloggar, ou blogar. Parece-me uma meia palavra, assim como os blogs me parecem meias-coisas. Meias-casas; meias-ideias; meias-conclusões; meias-leituras. Este blog, com o seu ritmo próprio, refém voluntarioso do ritmo do meu trabalho e da minha mudança, também ele é meio. Metade de uma coluna mensal na Loud!, metade que me permite extravasar aquilo que não cabe no conceito e nos àvaros 3000 caracteres que me são dados com generosidade pelo editor.

Em todo o caso, blogo quase em directo duma conferência sobre Arte e Música. Ao meu lado encontra-se talvez a pessoa com o discurso e a mentalidade mais completa e profunda de toda a música Portuguesa, entendida como cena e manifestação. Essa pessoa é o José Mário Branco que me acabou de revelar na sua intervenção verdades observadas com a astúcia e a inteligência de quem sabe sentir e que sente o que sabe. Resta agradecer. Algumas ideias: o objecto artistico estar fora do sujeito e resultar de um encontro entre este e quem os ouve e a frase magnifica, até fora de contexto, "os criadores são meninos que andam a entregar recados dos Deuses."

Aliás,na minha suspeita opinião, a intervenção das pessoas ligadas à música teve o condão de aquecer as intervenções mais académicas e umbilicais das pessoas da Arte Contemporânea.

Para efeitos de consulta aqui vos transcrevo a minha intervenção escrita, perdendo-se a oralidade e a dinâmica da mesma:

"Como convidado tenho sempre o péssimo hábito (para além de ler as minhas intervenções) de não compreender totalmente na sua exactidão orgânica o tema e os títulos dos debates, conferências, comunicações. Não o faço por mal, nem quero de forma alguma demonstrar ingratidão ou desrespeito pelas pessoas que disponbilizaram tempo a pensar em como condensar as ideias a debater numa expressão ainda por cima tão sonante e interessante como a que hoje nos reúne aqui: politica, valor, criação.

Esta particularidade minha nasce de uma divisão básica que faço para a vida e para a Arte e que serve duplamente para quando a arte imita a vida ou a vida imita a arte. Aliás, a palavra criação é tão destes dois âmbitos, que talvez seja o melhor dos elos verbais possíveis entre elas. A divisão a que me refiro é entre o essencial e o acessório, o criativo e o comunicado, o profundo e o periférico. Nem sempre esta divisão tem um valor qualitativo de nobreza. Como artista nascido para aquilo que faço nos finais de 80, atravessando em tempo real algumas das modificações mais importantes para o paradigma da música e sua comunicação (gravar em fita, gravar em digital, internet, concertos) sei da importância do pensar global quando se é um artista e de como um artista moderno acumula funções (agente, divulgador, estratega). O que, na verdade, quero dizer é que neste trinómio a criação será sempre a causa, a politica que eu entendo como comunicação de influência, artística e comercial; e o valor enquanto resultado misto da criação e da comunicação será sempre sua consequência.

Defendo uma ideia porque não romântica da criação, de o criador se deixar inebriar pela observação e consequente transformação interior dessa observação em objecto criativo e comunicável. Digo isto porque muitas vezes leio entrevistas e desabafos de músicos em piloto automático com o seu conceito mas preocupados se a rádio irá passar os seus temas, ou se a televisão lhe abrirá as portas. Há espaço para essas preocupações legitimas desde que não retirem o espaço ao amor pela criação, amor que nos leva ao extremo dos cuidados e das intenções quasi épicas para com a nossa obra.

Como última ideia, gostaria até de defender que podemos aliar esse romantismo à comunicação da nossa obra (edições especiais, ideias, metal brunch) e não saindo do nosso conceito comunicado, fazer uma exposição comercial mais equilibrada com a nossa criação feita com a consciência de causa e não como acessório à divulgação de algo. É esta simplicidade que defendo para os Moonspell."


Até breve!

6 comentários:

AD disse...

Uma ideia para este país.

Fernando Ribeiro como ministro da Cultura em Portugal.

Sei que não colocavas portões de desmotivação aos nossos artistas.
Algo está mal em Portugal e o povo necessita de ser educado culturalmente.

starfish disse...

"É esta simplicidade que defendo para os Moonspell." - há quem diga que as coisas mais simples, são tamém as mais belas.

Ah, e por falar em coluna mensal da Loud, adorei a "Âncora" :)

Beijinhos

Ruben/Wolfheart disse...

concorco com o que dizes, e fazes bem em defender essa simplicidade para os Moonspell, porque só vos fará justiça, na minha opinião, como minha banda favorita no cenario nacional acho que esse valor que defendes, a simplicidade deve ser a premissa pela qual tudo se deveria reger, pla simplicidade, pura e simplesmente uma simples simplicidade :)

Fabiano disse...

Achei uma ótima reflexão. O que se deve preocupar mais é no fato de se criar algo que seja só seu, algo que o identifique como criador. Pessoas que realmente gostam daquilo que você cria, gostarão de qualquer maneira, não importando se gostam mais ou gostam menos. Porém, isso não é um assunto para se preocupar no ato da criação, que devemos apenas nos concentrar em nos empenharmos ao máximo para criar uma arte de qualidade.

Um grande abraço! Aguardo vocês no Brasil!

Aeterna disse...

Desde já os meus parabéns e continuação de um óptimo trabalho, não só relativamente ao fabuloso desempenho revelado já pelos Moonspell, assim como colunista.
Apenas uma pequena observação...O consumismo apela ao comercialismo. A diferença e a qualidade reside unicamente na capacidade de saber equilibrar na perfeição a balança.

Cumprimentos :)

Anônimo disse...

Se tivesse ido dar aulas serias um professor à maneira, e eu gostaria de ser tua aluna!

Também li o "Declínio da Mentira" do Oscar Wilde, e vejo como o teu discurso nele encontra apologia no sentido da arte imitar a vida.

Continua a escrever que eu continuo a gostar de te ler. É um prazer!


Cumprimentos, até breve.