sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Liga de Cavalheiros

Thomas Gabriel Fischer/Warrior é o fundador, alma, voz e espírito dos Celtic Frost e agora dos Tryptikon. Em conjunto com Martin Eric Ain, criou, por mão própria,dentro do Metal, um estilo alternativo, com uma escuridão especial, introduzindo elementos avantgardistas, vozes femininas, arranjos orientais e uma temática forte, guerreira, maldita coadjuvada por uma imagem dark e sepulcral, à qual ajudou a amizade e colaboração com o pintor/escultor H.R.Giger que assinou o artowrk de To Mega Therion. Thomas trabalha actualmente com Giger, como seu assistente. Mas tudo isto já sabiam vocês.

O que talvez escape é que Thomas é um cavalheiro. Uns dos já raros nobres do Metal, com uma humildade, uma consciência, um conhecimento que nos encanta e conversa intacto os nossos mitos, não sobre um Metal God Suiço, mas apenas um homem solar e lunar, forte, conciso, simpático, que sabe quem é mas que não se atrapalha com isso. De mim, muitos dirão, que devia aprender com ele. é verdade e assim o fiz. Porque o Tom também tem os seus detractores, pessoas que não o tentam conhecer e conduzem a enganos terríveis. Eu consigo indentificar-me com isso.

Conheci o Thomas há coisa de cinco anos atrás. Fomos tocar a um festival na Grécia e encontrámo-nos no hotel. Já contei esta história na Loud! mas aqui fica o sublinhar do deslumbramento e adoração, contidos pela simplicidade desarmante do Tom que me fez calar para fazer elogios à minha banda, que nem sequer existiria, não fora a sombra e o legado de homens como o Tom, o Quorthon, o Peter Steele. Todos eles, à sua maneira, cavalheiros e justos no trato.

Quando agora me cruzo com figuras de proa do Metal, vindas do boom do Viking Meta, do Pagan, do folk, acabo-me por me sentir sozinho e snob, porque talvez estivesse mais habituado a uma boa conversa, a emanações inteligentes, a troca com conteúdo, momentos imersos em humanidade, com a piada fácil mas espirituosa, sem os silêncios incomodados de uma conversa sempre em gritos, à volta de qualquer bebida forte, ou de mares de mijo de cerveja, falando de quanto se vende, o que se toca, ou de qualquer coisa fraquinha de conteúdo para não incomodar o avançar das células alcoólicas.

A última conversa de jeito foi mesmo com o Alan dos Primordial e agora vocalista do tributo a Bathory, Twilight of the Gods, que vi ao vivo no 70.000 tons of Metal, para meu gáudio. Ele explicava que na tour Paganfest (com Ensiferium, Finntroll, entre outros) tinham sido convidados para fechar o que se revelou uma armadilha. Da grande adesão do público na Alemanha, eles beneficiaram muito pouco, porque o concerto funcionava assim: entrava toda a gente, via a sua banda preferida e ia-se embora. Os TOG chegavam a tocar para 200 pessoas numa plateia inicial de 2000. Eu, conhecendo a realidade, não pude deixar de perguntar, até pelas ligações criativas e fundadoras de Bathory ao Viking e Folk e Black Metal, se não havia curiosidade em conhecer o legado, mesmo que através de um tributo, sendo este constituido por gente ilustre. Ele foi pragmático e respondeu que não. Porque ninguém conhecia Bathory.

Os jovens fãs Folk que enchem estes concertos vão-se, então, indo embora sem dizer adeus a ninguém, sem socializar, sem beber uma cerveja. Um dono de um clube famoso pelos seus shows Metal na Alemanha, vaticinou: estes miúdos estão a matar o Metal. Este é um post sobre o lado elegante do Metal mas não posso, depois da experiência que foi o cruzeiro, de sublinhar que o Metal tem o outro lado, do companheirismo, da libertação que vivido em comunidade pode dar origem a um saudável convivio, a um estilo de vida, que cavalheiros ou não, fazem parte de todo o processo de fruição do Metal, coisa que, pelos vistos, não extravasa a reacção quase ensaiada do povo às sugestões do palco. Como uma nação de zombies, lideradas por zombies.

É bem verdade que cada um ouve o que quer e como quer, mas para ouvir Metal tem de fazer um compromisso mais alargado que extravasa a música. Podemos preferir o cavalheirismo de uma boa conversa entre criadores ou a folia de uma boa corrida pelo moshpit, mas há algo que nos irá unir no fim, um sentido de participar que tantas bandas, editoras e fãs fez e faz surgir no mundo inteiro. O 70.000 tons of Metal foi uma experiência insólita mas pioneira (aqui darei contas das nossas aventuras mas tarde) que conseguiu a proeza de reunir todos os comportamentos. Houve quem fizesse jacuzzi todo o dia, houve quem fizesse workshops de instrumentos. Houve quem trocasse fluídos, outros nomes de bandas, livros, histórias sobre o seu país.

O trabalho que os TOG de Alan dos Primordial estão a fazer é quase pedagógico e pode eliminar as fronteiras generacionais se ouvido com a atenção devida. Nós sabemos que não são os Bathory que ali estão, mas a experiência é para quem conhece, arrepiante, e para quem desconhece uma descoberta de ouro. Não se pode,de maneira alguma deixar uma forma de indiferença e apatia dominar o Metal, não se pode deixar que as ideias diferentes não tenham cabimento no estilo mais criativo do mundo, não se pode deixar a diversão, tão essencial, ser a única coisa que interessa ao novo Metal com temas da Antiguidade.

Esse temas são fascinantes. Por isso escrever sobre um Rei, sobre uma Saga, sobre uma nação, um povo, um legado tem que ser algo mais que uma pesquisa rápida na net, a observação atenta dos Senhores dos Anéis ou uma leitura bruta sobre a gema dourada do único disco de Viking Metal, digno desse nome, estilo e semântica, que é o Hammerheart dos Bathory.

Estas notas valem o que valem, mas a atenção segue e a vontade de nos defender do que nos é imposto pela via dos números tem de ser semeada, e as sementes são sempre pequenas em tamanho, mas possíveis de florescer, pela potência que encerram, como nos disse Aristoteles acerca das qualidades, séculos atrás.

Bom fim de semana a todos.

Ps: Se quiserem me ajudar a incentivar este blog partilhem-no no Facebook, comentem e dêem a mostrar a quem de interesse.Muito obrigado, long live metal!!!

3 comentários:

joana disse...

Este texto fez-me todo o sentido palavra a palavra... Eu, que comecei a ouvir Metal há pouco tempo, e que ainda o estou a descobrir, sinto que há uma "nobreza" e uma conduta que se destaca entre os grandes (no qual a meu ver os Moonspell estão incluídos), os que escrevem música e letras com o verdadeiro objectivo de semear e de fazer desta Terra um mundo melhor, mais saudável de emoções e convicções... Obrigada, pelas músicas, pelos textos, pelo empenho, pela força de espírito e pela humildade que caracteriza os homens verdadeiros.

Caroline Sky disse...

This time in english... Ignorance in metal is not a bliss. Radicalism in Metal is definetly a curse. Love the reading, powerfull words Master!!!

Soulseek disse...

actualmente acho que este aspecto é transversal a outros géneros musicais, a outros tipos de arte...o exterior, a imagem, o que se vê, sobrepõem-se ao conteúdo, ao espírito e à alma...o metal infelizmente também está a sofrer com isso, é uma realidade que não pode ser ignorada e que deve ser combatida..não se podem esquecer as raízes, a história, sob pena de o estilo perder identidade...não chega fazer downloads, ouvir guitarradas e fazer umas mochadas é preciso mais do que isso, é preciso conhecer a mensagem por detrás, os valores...