terça-feira, 30 de março de 2010

O mundo não parou, a observação continua

Debaixo de severo ataque de spam a esta ilustre tabuinha virtual, volto à vossa comunicação com duas urgências, para além de revitalizar este espaço, deixado como capim aos vermes informáticos.

1- Agilizar este blog, torná-lo mais rápido em texto e em intenção/informação. Posts mais curtos mas mais eficazes e periódicos. Tenho bom exemplo do meu outro blog de poesia que tem crescido de forma muito sustentada. Espero o mesmo deste.

2- Alertar-vos para a seguinte "polémica" e seus desvelos, incluindo as respostas devidas. Os vossos comentários serão bem-vindos.

link:

http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1530354&seccao=Alberto%20Gon%E7alves&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco

texto:

Na crónica da semana passada, escrevi umas linhas acerca do hip hop e da morte de um praticante do género numa perseguição policial. Sobre a morte, limitei-me a dizer que me pareceu mal explicada e desproporcionada. Sobre o hip hop, limitei-me a reproduzir algumas evidências repetidas por intelectuais americanos contemporâneos, por acaso pretos (ou negros, ou de cor, ou afro-americanos, ou o que quiserem) e não por acaso incomodados com o facto de semelhante subcultura poder ser representativa de uma etnia. Mais do que a respectiva pobreza musical ou lírica, os intelectuais em causa lamentam principalmente os "valores" assíduos em muito hip hop: a "glamourização" do gueto, a legitimação do crime, a misoginia e a homofobia.

Estas trivialidades despertaram uma pequena sublevação. O site do DN e a Internet em geral encheram-se de comentários destinados a afirmar a minha "intolerância" e a exigir a minha demissão, o degredo ou coisas assim tolerantes. Não percebi porquê. É claro que acho o hip hop uma miséria estética, como acho esteticamente miseráveis uns 95% (contas por baixo) da música popular produzida após 1955 (antes dessa data, o ratio melhora um bocadinho). A diferença está na influência e no crédito que, ao longo de duas ou três décadas, o hip hop adquiriu.

O heavy metal, para usar um exemplo normalmente associado a jovens brancos (ou caras-pálidas, ou caucasianos, ou o que quiserem), é de um primarismo similar, incluindo na celebração da violência (e na misoginia, etc.). Sucede que, ao contrário do hip hop, nem a "criatividade" do heavy metal beneficia de adulação externa ao culto (não conheço académicos empenhados em dissecar o lirismo da banda Nuclear Assault), nem o seu peso (sem trocadilho) ultrapassa círculos restritos.

Já o hip hop marca subúrbios inteiros, não só americanos. E se a popularidade do género alcança as classes médias (pretas e brancas), nestas a sua preponderância é residual ou decorativa. Nos bairros pobres e predominantemente pretos, porém, os "princípios" do hip hop condicionam opções de vida. Há oito dias, sugeri que o estereótipo de uma identidade que apenas se define pela aversão ao "sistema" derivava do folclore, nem sempre inofensivo, do black power dos anos 1960. Faltou lembrar uma tradição anterior e aparentada, disseminada por brancos interessados em perpetuar, para fins ideológicos, a marginalização dos pretos (o ensaio The White Negro, de Norman Mailer e de 1957, resume e participa de tal "programa"). Enquanto herdeiro desse espírito, o hip hop isola as pessoas da sociedade, para a qual se reserva uma postura de mero confronto que condena os habitantes do gueto, real ou virtual, a uma existência diminuída. Dito de maneira diferente, o preto "autêntico" é o que se remove do "mundo dos brancos" (?). Os outros, os que se esforçam por integrar um universo que o paternalismo manda rejeitar, são os Uncle Remus, os Pais Tomás, os vendidos em suma.

O racismo aqui implícito ganha um twist irónico se repararmos que a "afirmação" identitária associada ao hip hop vem sendo explorada pela indústria em prol de uma audiência maioritariamente branca. É, no entanto, um reparo a evitar: Stephin Merritt, um dos raríssimos talentos em actividade na música pop, afirmou uma ocasião que, no seu confrangedor exibicionismo, a imagem dos "artistas" de hip hop evoca as caricaturas da iconografia esclavagista. Num ápice, meia dúzia de indignados profissionais saltaram a pedir a cabeça de Merritt. Aparentemente, o assunto é delicado em toda a parte.

Por mim, não me aborrece que os cultores do hip hop se ofendam com o meu artigo (pouco original, repito): a opinião é livre. Aborrece--me que certos sujeitos alheios ao tema distorçam o artigo a ponto de concluir que eu tentei "justificar" a morte do sr. Nuno Rodrigues ou, até, que me congratulei com ela. Aí entramos no domínio da velhacaria, inata aos blogues e aos partidos de extrema-esquerda por onde esses sujeitos se arrastam em busca de atenção. E com velhacos não há conversa. Com os demais, duas palavrinhas de esclarecimento: que eu saiba, o sr. Nuno Rodrigues, ou "MC Snake", não fez mal a ninguém excepto, eventualmente, a ele mesmo, ao ceder a um estereótipo que aprofunda a exclusão de que se queixava nas letras que dele li. Ou seja, não foi o hip hop que levou o polícia a disparar (nos tiros somente interveio a estupidez do agente), mas o hip hop talvez tenha levado o sr. Nuno Rodrigues a fugir em primeiro lugar ao polícia.



A minha resposta:

Não caindo na mácula essencial da Sociologia que é a de tudo generalizar, para capitalizar mais cedo o timing de saída/escape dos nós complicados das subcivilizações que pretene estudar, a verdade é que os sociólogos se fazem representar mal publicamente. Não é a primeira alarvidade publicada ou posta em prática nas conferências do estilo e não será de todo a última. Teria todo o prazer em convidar esse observador da sociedade, o para conhecer, por exemplo, o escritor JL Peixoto, o politologo e cronista do Expresso Henrique Raposo, o deputado Europeu Paulo Rangel, o comandante da TAP Pedro Venâncio, o encenador João Brites, o actor Miguel Moreira, entre outros que da solidez das sua carreiras sentiram e traduziram em influências nas suas obras a inteligência, profundidade e eternidade do Heavy Metal. Num concerto de Metal, também o gostaria de ver, se bem que concerteza lhe faltem os necessários tomates presenciais, quem se esconde por trás das palavras e das certezas da estupidez, raramente aparece. Por ora, sejamos como os Romanos, que diziam que às Àguias não importam as moscas.

Este artigo a ser opinião, tem o efeito da pulga, da carraça, do percevejo. Só a notamos quando nos pica para a chupa do sangue. Este Sr. é assim. Nada mais que um bicharoco que pensa ter algum dom. Não tem, muito menos para a música. Só para a
FR
Moonspell


Rui Miguel Abreu/Blitz

http://www.33-45.org/?p=882

Até breve!

9 comentários:

Anônimo disse...

Esse senhor não sabe, porque de certeza que nunca esteve num concerto ou num ambiente onde houvesse comunhão com amantes do heavy, quer do hip hop, por isso ele debita postas de pescada de não sei o quê... talvez seja preconceito que em suma só reflecte a sua ignorância perante o assunto.

Não é legítimo que este senhor fale do heavy, porque para além de não acrescentar nada, rótula os apreciadores como uns alienados com actos de brutalidade própria do tempo das cavernas.

Mas vamos deixá-lo falar até se cansar, porque pode ser que um dia aprenda alguma coisa, e por fim passe a tratar só sobre aquilo que aprendeu de facto. E porque nos preocupamos com ele, se existem outros tantos com o dom da esperteza que apenas só se ouvem a si mesmos e se armam em grandes intelectuais do vazio que é dar a última palavra para rematar o seu egotismo, ou seja, muita oratória, escasso conteúdo e falta de profundidade.

O meu conselho é: não percamos tempo com escorias!

Bruno Gouveia disse...

Nos dias de hoje, de muita informação, leêm-se os conteúdos na diagonal. Por um momento ao ler o texto citado, não vi no imediato que o era (texto citado), e por isso rapidamente me repugnei. Por isso apenas uma palavra de cuidado em publicar tais palavras...

Anônimo disse...

Culpar a música (mais concretamente o hip hop, o rock e o heavy) pela violência e marginalização verificadas na sociedade parece ser uma via fácil de seguir do ponto de vista sociológico. Lembrei-me da resposta que Marilyn Manson deu quando o culparam por ter "inspirado" o massacre de Columbine: "the President was shooting bombs overseas, yet I'm a bad guy because I, well I sing some rock-and-roll songs, and who's a bigger influence, the President or Marilyn Manson? I'd like to think me, but I'm going to go with the President (...). Nobody said 'well maybe the President had an influence on this violent behavior'".
Culpar o hip hop por acções de "glamourização do gueto, legitimação do crime, misoginia e homofobia" é como responsabilizar os Beatles (e a sua canção 'helter skelter') pela psicopatia de Charles Manson ou Wagner (e o seu famoso 'Anel de Nibelungo') pela loucura de Hitler. Ai os malefícios da música clássica...

Sandra

Chelgore disse...

«...às Àguias não importam as moscas.»

Pouco mais tenho a acrescentar. Como em poucas palavras se fez passar um atestado de insignificância a esse ser que diz que é e que entende da coisa...

António Dias disse...

A minha regular visita a este blog ofereceu-me mais uma bela prova da sociedade portuguesa. Muito obrigado Sr Fernando Ribeiro.
A sociedade mergulha cada vez mais no copo que encheu e por incrivel que pareça, não tem medo de se afogar. A morte do Mc Snake foi algo que me chocou bastante porque além de um grande adepto do som rock e metal, tenho uma grande admiração por pessoas ligadas ao hip hop. Infelizmente as pessoas vivem com o estereotipo do que vêem e do que ouvem por entras as ruas que constituem o nosso país. As razões que levam alguém fugir da policia é da consciência de cada um, e o que torna engraçado toda esta situação é que se fosse um civil, dito "comum" sem nenhuma ligação musical ou de outro género profissional, não se teria feito tamanha barulheira (e supostamente nós é que somos acusados por esse som que irrita alguns ouvidos), porque vejamos se fosse assim: "Um individuo não obedeceu a uma paragem stop da policia e foi perseguido. Houve troca de disparos entre as autoridades e o suspeito em causa, causando um dos tiros a morte ao fugitivo. Dentro do carro havia droga e uma arma." Se a noticia se escreve-se assim era apenas mais uma noticia tipicamente americana a acontecer em solo lusitano. No meu ver as pessoas tendem a puxar a sardinha para a sua brasa sempre que possam.
Um bem haja e desculpe por me ter esticado no texto.

António Dias

Pedro Sousa disse...

Caro Fernando Ribeiro,

Não só para provar que vou acompanhando toda a tua actividade, mas para te dizer que, neste artigo não vi ponta de sociologia, mas meras trivialidades, aqui estou a comentar este artigo e o teu post. É banal misturar os novos fenómenos sócio-culturais com acontecimentos que tem tanto de negativo como de velho na história dos homens. Os exemplos são muitos e os pretextos sempre renovados. Estudar uma sub-cultura requer resistência às generalizações, não o misturar toda uma cultura com epifenómenos de violência ou considerar que estas mundividências não merecem ser estudadas, por serem fenómenos "a-culturais" ou de margem.
Afirmar que o Heavy Metal ou o Hip Hop são fenómenos marginais é uma mera impressão de café que portanto não carece figurar na página de um jornal que pagamos para a ler.

Um abraço,

Pedro Rodrigues de Sousa

Christine disse...

Não querendo entrar muito na escrita explicativa e concreta (até porque não tenho muito jeito para tal, infelizmente), mas é este tipo de artigo que me deixa sem palavras e cada vez mais espantada com a sociedade dita calorosa e aberta de que tanto se fala...
Creio que este Sr.jornalista, não tendo escapa possível por ter posto 'o pé na poça' (no 1ª artigo), aproveitou para agarrar num género musical (algo minotário) e associá-lo ao Hip-hop, numa tentativa de se desculpar pela sua ignorância profunda quanto aos problemas sociais existentes nas sociedades ditas: modernas/evoluídas/liberais, e da complexidade do ser humano, tanto do lado A como do lado B.

Ainda por mais que, aqui tenho mesmo de 'puxar a sardinha' para o meu lado, dado que em relação ao Hip-hop nunca consegui compreender bem a mensagem que os seus adeptos pretendem transmitir, não verificando (na generalidade) uma associação entre aquilo que defendem e aquilo que realmente praticam [falo com conhecimento de causa, resido numa cidade algo problemática nesse campo...].
Ao invés que no Metal (com exclusão das bandas de extrema-direita) existe sim uma mensagem e algo a aprender e a tirar partido de, you have to read between the lines - é esse o propósito do nome "Nuclear Assault"!
Quanto à 'misoginia', esse sentimento reside ou não em cada um (teoria hobbesiana), pode ser cultivado sim senhor, mas nunca será por causa da música que o mesmo se manifestára, mas sim por causa daquilo que se designa de factores exteriores e que escapam a muitos!

Sei que não é necessário a justificação do Metal a ninguem, mas defendo mais eventos como o 'Metal Day' ocorrido na Fil, para despertar as mentes fechadas e ocas!

Um concerto dos Moonspell no Parque Central também não fazia mal nenhum! \m/ \m/

Saudações
Cristina***

Lord of Erewhon disse...

Manda-os levar na anilha!
Não vale a pena, é uma manada de jumentos de palas nos olhos.

Abraço!
P. S. Hoje repostei n'O Bar do Ossian um texto, que, a primeira vez que viu a luz, me saltaram em cima por escrever «pretos». Não vale a pena. Há gente que tem preconceito contra a subcultura a que pertencemos, mas só que não assume!

Na anilha!!

Lord of Erewhon disse...

P. S. Fui ver o vosso concerto na FIL - foi porreiro, mas tinha merda a mais no público...