domingo, 1 de abril de 2007

O meu melhor artigo

The twilight of the God

Vai ser pesado hoje. Visualmente este artigo tem um fumo negro, uma lista preta, daquelas que ainda muita gente usa cozida ao braço, num luto discreto mas que ninguém deixa de ver.

Correm as últimas horas do sétimo dia de Junho ou talvez já as primeiras do oitavo dia quando o meu odiado telefone toca o som nulo da recepção de uma mensagem que, pelo tardar ou raiar, faz bater o coração em ritmo de alerta, de pressentimento de que nem tudo está bem. A mensagem é simples: “Quorthon morreu.” Quem envia uma meia-surpresa: Duarte alias Mantus, um amigo e companheiro de velhos tempos que o tempo e a vida se encarregaram de afastar mas não esquecer. Telefono de imediato e falamos levemente da dor enquanto a minha mente viaja até há quase quinze anos atrás.

Correm as primeiras horas dessa noite mais ou menos quinze anos atrás. Toca o toque antigo dos telefones que na altura eram modernos. Do outro lado, bem mais pessoal, a voz do Pedro Catarino, o primeiro guitarrista de Morbid God, que nunca chegou a ter um pseudónimo que levasse a sério. O seu histerismo é quente contra a nossa incredulidade gelada. O rumor confirmado num pequeno anúncio de rodapé a preto e branco no Blitz. Quorthon de Bathory desloca-se a Portugal para promover o seu novo disco Hammerheart. Sessões de autógrafos, datas, locais, horas. Eu nos meus entusiastas terceiros passos no Underground, o Ares que ainda era João Pedro e em potência breve Tetragrammaton, o Nuno Saias sempre atento às peculiaridades destes seus amigos metálicos, talvez também o Toureiro que ainda não tinha comprado a bateria de Baalberith. Todos nós ou quase todos nós naquelas reuniões visionárias de papéis, de cachimbo de tabaco doce, de livros, de planos, de cassetes, de alegria camuflada em grito por dentro da pele no assombro de que íamos conhecer e talvez apertar a mão ao nosso ídolo de sempre, por quem jejuávamos nas cantinas das escolas, por cujos símbolos aguardávamos meses em suspenso, por quem cortávamos a nossa pele jovem. Todos nós sabíamos que nunca iríamos esquecer esse dia e que esse dia iria mudar a nossa vida para sempre.

São 6 da manhã desse dia mais ou menos quinze anos atrás. Não consigo dormir mais,chego cedo numa t-shirt de Sodom emprestada ao encontro. Transportes, conheço o Jó (Theriomorphic) entre paragens antigas de camionetas onde agora se ergue o maior centro comercial da Europa, vamos depressa, chegamos tão cedo, o nosso clã que nunca sai do sonho a avançar no autocarro, no metro, no barco, a pé descendo as ruas míticas de Almada. A concentração na Tubitek, a figura alta e loura a desenhar-se no cimo da rua a caminhar com o Boss, seu pai, o coração a bater forte, as falas em inglês ensaiadas a engasgarem-se na nossa garganta. Sempre por perto, o nosso olhar com fome daquela aura, o Miguel Fonseca dos Thormenthor, nós a admirá-lo. Quorthon foi almoçar com os abençoados da sua companhia, nós perseguimo-lo. Uns para casa a buscar os discos que não tínhamos trazido por inocência do medo. Outros a ficarem entre cachorros quentes baratos e tímidas cervejas, felizes como mais ninguém à nossa volta no mundo. Uns a correrem de um lado para o outro com discos e gravações das entrevistas na rádio, outros com as horas a correrem dentro de si até ao próximo encontro. Chegamos todos ao mesmo tempo, o Motorhead alto e impressionante, o Zé dos Decayed, o Belathauzer com uma t-shirt dos Dead Kennedys e o seu irmão, um puto com uma t-shirt dos Jogos Olímpicos de Barcelona, o pessoal muito pessoal. O único Hammerheart do país fora do nosso alcance, a conversa gravada e ouvida até à exaustão, as impressões trocadas até ao desgaste nas horas amargas do regresso.

Já conheci muita gente que nunca pensei conhecer e já falei com muita gente que não ousava pensar em falar. Só vi Quorthon desta vez. Só falei com ele desta vez. Nunca calhou o reencontro, nunca se deu a oportunidade. Mas vivo esse dia de há mais ou menos quinze anos como agora, e o que pensámos todos nessa altura vale hoje ainda como aquela luz que nunca se apaga. Acedo ao meu mail e tenho um mail do Ares ao qual respondo. Já não comunicávamos há sete anos, provavelmente. Telefono ao Duarte. Estou com o Belathauzer numa mesa pacata da FNAC passadas duas semanas. Tudo é lógico e todos sabemos que somos ainda aqueles que pensámos “que nunca iríamos esquecer esse dia e que esse dia iria mudar a nossa vida para sempre.” E é isso que celebramos e de que nos recordamos, muito mais importante para nós que o dia da sua morte.

Afinal a luz apenas mudou de sítio. Já não percorre as amarguras da Terra. Está no Valhalla que transportamos dentro de nós e que sai pelas frinchas de todas as almas que voam quando fazemos aquilo que Quorthon nos ensinou: just be yourselves! (sejam vós próprios!)

4 comentários:

endovelico disse...

como filho (bastardo)do Mp3 e do cd pirata, ainda sei o que é viver no saudoso e glorioso tempo da cassete...em que havia alguem qeu comprava o cd e copiava pra malta do bairro. que (quase) passava fome pra poder comprar a bela da cassete virgem, que ficava as 5as(na minha zona era as 5as) a ouvir a radio local e a gravar o programa semanal sobre metal, que quando se comprou o primeiro cd original, ficou-se horas a fio a ouvir o cd e a ler as letras...a inocencia de um amor desconhecido...e quando se esta perto de um idolo(mesmo sem lhe falar, sem dizer uma palavra, ou ate ele nem dar conta de nos) parece que ele nasceu para aquele dia, aquele momento e "falar para nos", o eterno ombro amigo que esta la sempre pra nos!
em relaçao ao quothorn, passou-me um pouco ao lado, pk nao sou mt conhecedor do trabalho dele. No entanto, senti a mesma coisa, a lagrima no canto do olho, quando o (eterno) Dimebag foi cruelmente assassinado!

ΣvДиĞεĿīΩи disse...

Um ídolo será sempre um ídolo... e nunca mais vai sair das nossas mentes até à nossa morte...

Grande artigo

Adorei

[]

Marujo disse...

Quorthon e Bathory serão sempre grandes referencias do Metal! Já não se faz metal assim... agora é tudo muito limpinho e asseado!

Infelizmente não fui a essa sessão de autografos!

Outro grande artigo que também escreveste foi o do Tom G. Warrior! Outra personagem ao nível do Quorthon... felizmente viva e a espernear!

Abraço!

Fátima Inácio Gomes disse...

Tocante... é, de facto, um artigo muito bom, porque intenso de vivências...
O que contas, marca a diferença entre a devoção a uma banda e FAnatismo de circunstância. No primeiro há entrega, que não é o mesmo que o "seguidismo": pode a banda mudar, falhar até, que se está lá, como um velho amigo, tentando perceber o porquê da diferença, o porquê da necessidade de mudar - é o nosso momento de dar. No segundo, há posse: nós devotamo-nos à banda e a banda fica em dívida connosco, não pode atraiçoar as expectativas que colocamos nela - facilmente aparecem depois as palavras "desvio", "traição","venda".
Num mundo/sociedade em que a conquista é sinónimo de cansaço,em que os desejos, tal como a comida, aparecem empacotados e prontos a consumir, tantos de esquecem que ser fã é, acima de tudo, retribuir. E preservar a magia.
Tu mostras isso. Será uma revelação para muitos.