domingo, 1 de abril de 2007

Albúm de palavras

O meu primeiro artigo :) O que terá mudado?

The eternal spectator


Alter ego
(Transparência recuperada)

Um escriba, de qualquer espécie, vive sempre em cisão entre dois desejos e medos opostos: a convicção pura de que nada tem a dizer,de que não tem quem o escutar; e a necessidade absoluta de, não obstante, falar bem alto e escrevre bem carregado. Alguém chama a este fenómeno sobrevivência, que, à falta de melhor, será uma definição menos incómoda e talvez acertada.

O convite da Loud para uma coluna mensal e a sua aceitação, explica-se assim. Escrever para uma revista de Metal é porventura lógico e até conveniente para mim. Porquê? Para além da óbvia relação musical, o Metal é, hoje um dia, um polimorfo, com tentáculos que se estendem a toda a realidade e fantasia, e que conferem um altíssimo grau de permissividade de pensamento e da sua solidificação escrita. Talvez seja, para todos nós, o quinto elemento, que penetra todas as outras substância- até as ílicitas- que nos rodeiam, ou das quais nos fazemos rodear.

Especificando, e acabando de vez com o tom aborrecido das introduções, vamos passar ao que me traz aqui pela primeira vez a este espaço: a divisão artista de Metal (sim, porque não?) e ser comum.

Tive a ideia para este artigo quando tive o privilégio de conhecer e conviver, durante todo um dia, com Bruce Dickinson, o mítico vocalista dos míticos Maiden. Foi em Bruxelas, o mês passado, quando me encontrava o promover a nova disco dos Moonspell e ele o seu best of. Falámos um pouco, confesso que escutei mais do que falei, e cheguei à conclusão que a vivência como vocalista, contador de histórias, músico,etc. 24 horas por dia, 7 dias por semana, etc. cada vez mais torna a dissociação da persona comum, que respira e come. Impossível e até, tentativamente, incorrecta e absurda.

Será tal coisa positiva? Sem dúvida. Toda a gente trabalha em se auto separar durante anos, de modo a garantir a sua normalidade e sanidade, mas quando se chega à confusão entre personalidades, o melhor é mesmo procurar o Uno absoluto, e assumir as realidades como uma só.

Bruce D. é um só, o vocalista e a pessoa. Apaixonado pela História e estórias que conta nos Maiden. E sinceramente, não consegui ver a diferença. Ainda bem. Sempre pensei que se deveria preferir o artista à pessoa. Seria mais seguro, menos propenso à desilusão do comum. Depois de o conhecer, ainda que superficialmente, aprendi e mudei de ideias. Porque ter um em cada parte, se podemos ter os dois num “envelope” muito mais interessante?

Sublinhe-se então o ego na expressão alter ego. Será talvez a melhor maneira de conhecermos, percebermos e vivermos com os nossos heróis e anti-heróis. E talvez connosco mesmos. Até uma próxima!

Fernando Ribeiro

3 comentários:

Victor Hugo disse...

Viva.
Confesso que fiquei intrigado com partes do teu texto. Em primeiro lugar concordo com a cisão que fazes; um escritor (prefiro chamar assim, pois escriva é outra coisa: no meu entender, claro) vive inicialmente com essa angústia: por um lado o desejo de sair do solipsismo, de deixar o ego exprimir-se em forma de signos, mas por outro lado receia a critica, receia a voz exterior, receia que as suas crenças sejam abaladas (mais do que as suas crenças, os seus sentimentos). Mas nesta faze ele não é, ainda, escritor; um escritor, como alguém dizia, tem vergonha dos seus textos (terá sido Nietzsche?); mais tarde enfrentará o maior crítico de sempre: ele próprio! O uso das palavras correctas para descrever paisagens abstractas torna-se tarefa dificil. Mas isto é um outro problema; as palavras dão um sentido às coisas; mas darão o sentido total? Decerto que não...
Outro ponto interessante foi o facto de focares a homogeneidade de Bruce Dickinson. Seja nele ou noutro artista, é sempre bom saber/conhecer que alguém de quem somos fãs é homogéneo naquilo que faz e com a sua vida pessoal. À boa maneira dos tempos do "sex, drugs and rock'n'roll", em que havia uma autênticidade no que se vivia e no que se fazia por profissão. Eram tempos que excediam a própria profissão, pois esta e a vida confundiam-se. Hoje já não se nota tanto isso devido ao factor monetário; a autênticidade do ego submete-se às forças monetárias. Não só na arte se nota isto, mesmo na vida "normal" as pessoas esquecem-se delas: vão trabalhar, voltam para casa e trabalham mais (já um grande pensador português disse que nós não nascemos para trabalhar, nascemos para ser poetas); eu concordo que é pela arte que se desvela o "eu" e a "verdade" (à boa maneira de Heidegger); e para isso temos de ser autênticos, temos de "descer", de recuar ao Mito (ou até mais longe: ao Rito), encontrar o Ser e familiarizarmo-nos com ele. Por isso achei curioso referires essa homogeneidade na personalidade do B. Dickinson. Ele é um bom artista e... autentico.

Continua com o bom trabalho.
Estarei atento.

Victor Hugo

Dark disse...

Nao sera a definiçao dum proprio impossivel pela presença de multiplos traços de personalidades diferentes em potencial contradiçao? Todos temos mais duma vida por cada vivencia e mais duma opiniao sobre cada coisa. Uma sempre prevalece, é certo. Mas é nesse momento, nessa circunstancia. E seremos tao mais estaveis quanto melhor conseguirmos manter a opiniao, justificando e objectando outras.
Viver com mais duma personagem é, deveras, acolhedor, no entando, nada original. Ja o sr. Pessoa o fez, se deu conta, separou e organizou.
Somos entao a mistura das pessoas que vivem em nos. É isto que podemos tirar de tudo isto?

Raul disse...

Comigo, acontecesse-me atravessar dias e dias sem pegar na caneta, mas todos os dias sinto a ansiedade e o chicote a pressionarem-me os anos verdes. Quando efectivamente escrevo, quando a realidade saturou-me de não escrever, escrevo bem enquanto me lembro do que é estar quase a perder as palavras; mas depois tudo quer sempre mudar. Chego a um ponto em que afinal já parece que conheço demasiado bem as palavras, e que elas parecem-me tão finitas que sinto que a única solução seria escrever infinitamente, sem nunca parar, para que nunca fosse preciso escolher um fim. A realidade cai-me aos pés desinteressante e de novo, ponho a caneta de lado durante dias. Contudo, este desespero não é mortífero porque tenho as palavras dos outros, e essas não sei como as posso deixar de ter, e portanto, penso às vezes que este ciclo não passa de método.
Em verdade, não afasto a caneta voluntariamente, e é isso que me faz igual ao escriba, que com ou sem tabuinha, está condenado a pensar infinitamente nas palavras.