sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

And justice for all (getting away with it)

Revolta pré-fim de semana talvez mas salta à vista de todos que a justiça no nosso país é apenas uma espécie de miragem habilidosa que alimenta uma casta de mentalidade e acção podre, contaminando e minando o ânimo de quem trabalha para o sonho sair da mente e caminhar alguns passos que seja.

Sei bem que a generalização, essa espécie de globalização preconceituosa e de utilidade individualista é um caminho perigoso, mas o estado da justiça em Portugal dá a esse perigo uma "justiça" inesperada. Na justiça Portuguesa pode-se generalizar à vontade e pessoalizar só um bocadinho olhando, com fraca mas necessária esperança, para todos os funcionários, magistrados e pessoas com alguma competência e vontade de mudar mas que em nome e consciência própria sabem que são poucos e, talvez, inglórios os seus esforços e a sua seriedade.

Este blog não é político: é humano. E não quero escrever para o Expresso nem sequer o título do post de hoje será uma referência a um grande disco dos Metallica. Escrevo como cidadão. Permito-me a isso sem obrigações estéticas.

Já passaram alguns amargos anos sobre outros mais bem amargos em que os Moonspell estiveram envolvidos em vários processos judiciais contra o nosso ex-baixista que, depois de abandonar a banda, registou à nossa revelia o nome da mesma, bem como, ainda enquanto elemento dos Moonspell, tinha registado música e letras quer do disco Irreligious, quer do Sin/Pecado, disco para o qual nem sequer contribuiu ou gravou qualquer parte. As coisas foram resolvidas após quase 8 anos por acordo extra-judicial e concerteza o visado terá a sua versão, tal como nós temos a nossa, a que ficou registada na única vez em que todos nos sentámos nos bancos de um tribunal, num dos episódios mais tristes da nossa vida enquanto homens e músicos.

Facto é que apesar de tudo nós sempre mantivemos as nossas prioridades e convicções e a nossa discrição. Afinal, quem nos segue, quer é ouvir e sentir música e mensagem e coube-nos a nós gastar o dinheiro, o bem-estar, a vida necessária a não desitirmos do nosso sonho e a não nos calarmos, sem reacção perante a injustiça e a traição. Foi o que fizemos, sofrendo muitas vezes, em silêncio deixando a nossa música continuar a soar.

De todo este longo e custoso processo destaco o facto de nunca nos termos sentado, como réus, num banco de tribunal e de todas as acções movidas contra nós (para nos impedir de tocar, sonhar, trabalhar e como tal, indirectamente, contra a "família" Moonspell)terem sido irremediavelmente perdidas pela outra parte e como tal nunca nos conseguiram parar! Durante este penoso processo existiram duas situações que ilustram na perfeição a generalização que assumo da justiça Portuguesa, seus meios e seus "protagonistas". Uma ocasião foi um inquérito com um magistrado a que tive de comparecer, uma espécie de pré-audiência para atestar da importância do caso e se chegaria ao tribunal. Fui atendido por um magistrado que tirava a caspa do cabelo com um lápis, com os olhos colados a um panfleto que anunciava um magusto próximo e que, propositadamente, se referia ao nome das nossas músicas de forma displicente, falhando o Inglês como se de uma língua menos nobre se tratasse. Aliás, a sua sobranceria era toda ela como se tratasse de um assunto menor chegando ao ponto de me perguntar o porque de tanta agitação e celeuma, afinal não se discutiam obras de Bethooven (deve ter sido o único compositor que lhe ocorreu)mas simplesmente canções de Rock and Roll. O escriba (Fernando como eu) digitava, incrédulo. Ao chegar a casa telefonei à nossa advogada para lhe dizer que esse juíz iria arquivar o caso. A Drª não acreditou em mim, ou não quis acreditar, já que numa simples audiência é quase impossível chegar a essa conclusão. O facto é que este foi mesmo para arquivo dando razão à generalização de quem tem uma ideia pré-feita, um fim de tarde mau e uma preguiça do tamanho do atraso justiceiro. Também não é preciso cursar Direito para saber ler as pessoas, tal como o fiz desde que me sentei à frente daquele ignorante doutor.

Após um outro esforço financeiro e legal, levamos este caso a tribunal, onde toda a nossa matéria foi dada como provada tendo o réu sido, no entanto, absolvido ao abrigo de um convénio com a lei alemã (mais suave que a nossa na mesma àrea de jurisprudência)tendo nós chegado ao absurdo de uma "vitória" onde tudo aquilo que pretendiamos para desbloquear a situação e recuperar o que nos era legítimo nos foi negado por quem nos tinha dado toda a razão.

A sobranceria continuava, afinal não eram mesmo obras de Beethoven, nem sequer um crimes relacionados com drogas, sexo ou finanças (mesmo que fossem, talvez o desfecho fosse o mesmo). Pois não, não era, era simplesmente a nossa vida, a nossa música, as nossas letras, o nosso nome, o nosso público, a nossa continuidade.

Dizem e bem que a lei é pura interpetação. Pois, para mim, falta humanidade e seriedade nessas leituras, é esse todo o problema. As faculdades e os vícios da justiça criam autómatos, mais fiéis ao espirito da técnica do que ao da lei pois quando não se decide tendo em vista o equilibrio e a justiça social, talvez então a anarquia e o niilismo não sejam conceitos menos disparatados como ganhar um caso e ficar com o mesmo problema.

E enquanto se puder mentir (ou desmemoriar), ofendendo a inteligência de todos, numa comissão de inquérito parlamentar e tudo ficar na mesma; enquanto se governar e decidir em tribunais eleitos a pensar em tudo menos em quem e no que se deve; enquanto não houver retorno, consequência ou castigo de quem erra, por leveza, nestas decisões então a justiça é só isso mesmo: habilidade para quem sabe empatar e dizer as "não-verdades" certas no tempo e no sítio certo; e miragem, à laia das palmeiras do Dubai, para quem tem dinheiro e conhecimentos (não adquiridos em sede de estudo) fazendo com o que o regime, em algumas coisas, mantenha a sua "antiguidade."

E quando é assim a revolta antes do fim de semana deve aparecer escrita.

post scriptum/curiosidade para desanuviar:

PRÉMIO DA CRÍTICA 2008
A Associação Portuguesa de Críticos de Teatro atribuiu o Prémio da Crítica, relativo ao ano de 2008, a João Brites pela criação de Saga - Ópera extravagante.O júri foi constituído por Ana Pais, Constança Carvalho Homem, João Carneiro, Maria Helena Serôdio e Rui Pina Coelho.O mesmo júri decidiu ainda atribuir três Menções Especiais, respectivamente, à actriz Carla Galvão, ao encenador Miguel Loureiro, e ao encenador Nuno Cardoso.A cerimónia da entrega destes prémios realiza-se no próximo dia 23 de Março (segunda-feira), no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz (Lisboa), às 19h, sendo livre a entrada. Para quem não sabe participei neste espectáculo na personagem Deus Pirata. Fico feliz por todos os que deram tudo neste espetáculo, elenco, o Bando, Banda da Armada, Jorge Salgueiro, a equipa técnica e todos quanto foram ver!!!

5 comentários:

Anônimo disse...

A nóticia que nos dá, não é de todo a melhor para si ou para a banda, mas é como diz neste país nada é feito como deve ser muito menos ao nível da justiça.
Contudo quero mais uma vez agradecer-lhe por voltar a escrever no blog como já tinha referido em outros comentários, mas de facto o Fernando não imagina o prazer que nos dá ler os seus blogs, por isso lhe peço que continue a partilhar as suas esperiencias e a contar as suas "histórias".
Espero que esteja melhor, e mais uma vez agradeço o facto de continuar a escrever para nós.
Obrigada
Raquel Valente

Sara de Almeida disse...

Antes de mais queria agradecer por ter voltado a escrever nos dois blogs que tento acompanhar. É um enorme prazer poder ler as palavras que partilha com todos nós!

O texto de hoje tocou-me de forma especial e foi essa a razão que me levou a comentar o blog. Acontece que estudo direito e tal como muito portugueses também acho que a justiça não está como devia. Mas acredito numa coisa 'quero mudar' e tal como eu sei que muitos juristas também o querem fazer. O mundo não muda de repente.. muito menos a justiça que vive agarrada a códigos com centenas de anos com fracas adaptações ao mundo real.. no entanto, podemos mudar o mundo à nossa volta.. Pode demorar mas acredito que um dia poderei resolver um caso prático na faculdade e dizer que aplico um princípio jurídico e penso como será essa aplicação na vida de um cidadão, de uma pessoa com necessidades, sentimentos, vontades... Se cada umd e nós poder tal como faz aqui, partilhar um pouco do que nos acontece, provavelmente conseguiremos encontrar um mundo um bocadinho melhor!

Espero que continue a escrever,

Sara de Almeida

Anônimo disse...

Infelizmente neste país é assim, meu caro! E pouco ou nada mais nos surpreende naquilo que se veio a tornar numa grande bagunça.

Mas deixa-me confidenciar, que vale apena o sofrimento quando no sonho nos elevamos bem alto. Assim tem sido a vossa música, que é a emoção ao brotar da raíz com toda a virilidade.

Continuaremos receptivos, e nessa qualidade peço-te que continues.

Desejo também as mais rapidas melhoras. Deste lado fico irradiando!

Bruno Gouveia disse...

De facto ter uma ratazana constantemente a chupar do nosso suor / trabalho / dedicação é motivo para uma pessoa ficar amarga. Mas as nossas amarguras não são desculpa para os nossos tropeços, mas acho q podem sempre dar um desconto, afinal somos pessoas.

Anônimo disse...

Gostei muito de ler este artigo.
É a realidade deste país.Infelizmente quando somos "pequeninos" não há nada a fazer!

Há três anos que ando a tentar ser operada pelo nosso Sistema Nacional de Saúde e tudo o tenho conseguido são reclamações atrás de reclamações e aturado médicos que de humanos nada têm!

O que ganhei até agora? Sentir-me como lixo!

Em Portugal ou és VIP por apareceres na dita "imprensa" cor de rosa ou tens dinheiro para conseguires o que queres!

Justiça não existe no nosso país!