sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Metal com classe

São estes os artigos que prefiro escrever na verdade. Relacionar o Metal com algo mais lato e universal, e verificar, muito mais que academicamente, o poder e a inteligência deste som que na sua idealidade tem estas características de que fala este artigo. Passo a citar:

Metal com classe

A comparação entre Metal e Música Clássica, mais vincadamente a sua ambição sinfónica e operática, menos a minimal ou a puramente antiga, sempre foi algo de muito próximo. Usada não só para ilustrar as linhas em comum, a nível de composição, arranjo e postura, esta aproximação muitas vezes serviu a quem de causa, como manobra de credibilização do Metal e da sua escuta intensa por tanta gente no mundo. Por isso é que ao lado dos clássicos se arrumam outros clássicos, sendo que Wagner, Mozart, Sibelius, Beethoven, Prokofiev e Mussorgsky surgiam sempre nas preferências dos metaleiros que praticavam o culto de ouvir música clássica.

Existiu ainda e continua a existir uma saudável relação entre os dois mundos. De respeito e de contaminação positiva que originou portentos como os Apocalyptica ou os My Dying Bride, e que se solidificou em projectos ambiciosos de ópera Metal como no caso dos Queensryche em Operation Mindcrime, ou, mais recentemente dos Avantasia, com tantos bons, e tantos maus, exemplos no miolo temporal. Os Metallica, nome cimeiro do Metal, chegaram até a editar um disco inteiro, gravado com a Sinfónica de S.Francisco, dirigida por ninguém mais do que o malogrado Michael Kamen (entre outras coisas, consta do seu palmarés a composição e a condução da banda sonora original de filmes como Brazil-Terry Giliam-, ou License to kill, da saga 007) . Consta-se que S&M vendeu 2,5 milhões de cópias em todo o mundo, mostrando que a formula também resultava. Por cá e, questionado pelo Correio da Manhã, o maestro António Vitorino de Almeida dizia (sic) que era como misturar “chantily com costeletas de borrego”. O Metal era, obviamente, a carne…Enquanto isso, os Kiss, gravavam um espectáculo ao vivo em que toda a orquestra usava a maquilhagem que os caracterizou.

Nos aos 90 os Blasphemy (black metal Canadá) citavam A noite no Monte Calvo (Mussorgsky) como “a música mais maligna de sempre”; os Samael samplavam Ravel e o favorito Mussorgsky, os Therion compunham Theli e apostavam no registo das sopranos. A Filarmónica de Praga, encontra-se quase ao serviço do Metal, tendo trabalhado com bandas como Dimmu Borgir, Cradle of Filth ou Septic Flesh.

Chegados a esta nossa época, muito mais que um desprezo, sente-se ainda uma sobranceria que nos casos com cura se transforma em espanto e absorção da realidade estreita entre Metal e Clássico. Nos casos sem cura, os ouvidos e os olhos continuam fechados com o lacre do snobismo musical.

Mas temos razões para estar optimistas: o Teatro Nacional de S.Carlos, reduziu os preços dos bilhetes e aumentou o número de récitas, a Fundação Gulbenkian tem uma programação musical fabulosa este ano, a preços acessíveis. No Expresso de 8 de Setembro, o comentador político/social Henrique Raposo escreveu bem a propósito “E ao regressar à companhia do metal, volto a confirmar uma velha tese: a música clássica e o metal partilham a cadência (os tempos) e a trepidação (as intensidades). A orquestra dos penteadinhos e a banda dos guedelhudos não são dois planetas separados por uma galáxia de colcheias e semibreves. Muitos metaleiros desenvolvem um labor circular barroco; outros preferem a aceleração temporal do Romantismo. Para sentir isto, basta usar um cotonete para retirar os preconceitos dos tímpanos..


Mas a expressão mais perfeita que nos últimos tempos encontrei desta associação é o maestro Venezuelano Gustavo Dudamel. A forma como conduz a orquestra, a sua entrega, postura e proximidade, faz-nos um pouco sentir como se estivéssemos na presença de um verdadeiro frontman do Rock, que empresta uma imensa chama a uma mole sempre mais compenetrada e certinha. Não sei se o maestro Dudamel tem gostos roqueiros ou não, é provável que sim, já que o Heavy na América Latina continua a ser o estilo rock que mais gente abraça, mas a sua condução quase que inverte o título e o sentido deste artigo: também há Clássica com Metal.

Gustavo Dudamel é o resultado mais mediático do El sistema, um programa que formou milhares de jovens músicos na Venezuela, jovens esses que outrora tinham enveredado por uma vida de crime e violência e que a música, literalmente, salvou das ruas e deu um objectivo. Alguns desses músicos trabalham já em orquestras estrangeiras, ou permanecem na orquestra nacional Simon Bolívar que visitará o nosso país em Abril, na Gulbenkian. Gustavo Dudamel cancelou a sua primeira aparição este ano em Outubro por motivos de doença (o que me fez devolver os bilhetes que já tinha comprado) mas virá em Abril dirigir a sua orquestra de sempre: a do seu país. Existe ainda um DVD chamado The promise of Music que narra, na perfeição, esta história com final feliz.


O próximo artigo da Loud! seguirá esta linha,desta vez as relações com a Arte, algumas delas bem curiosas. Obrigado a todos pelos comentários e pelo encorajamento que me é importante. Como sabem eu modero os comentários e faço com que eles sigam as regras que aqui estipulei anteriormente. O Blog Spectator é um espaço aberto a contradição,opinião e discussão mas segundo moldes positivos. Aos haters e aos desabafos aconselho os foruns de conversação onde dão guarida a essa atitude, é como dizer quem não gosta de missa, não frequenta a igreja. Obrigado, bom fim-de-semana!

3 comentários:

ar disse...

Que excelente post! Fico muito contente pelo que escreveste.

Partilho da mesma opinião, de que os ouvintes de metal são mais gratos para com a música sinfónica-clássica do que aqueles outros, que ouvem outros géneros. Creio que se trata de uma questão de sensibilidade, dito profundidade.

Noutro dia deu uma reportagem curiosa, não me lembro em que canal, mas era sobre o projecto "zéthoven", um pouco à semelhança do El sistema do Gustavo Dudamel mas a uma escala bem mais reduzida. Este programa tem por objectivo iniciar os miúdos para a música, uma espécie de caça talentos a operar em meios rurais.

Quando ao leque de oferta de espectáculos, realmente temos tido grandes oportunidades. Mas infelizmente, pelo menos tem acontecido comigo, às vezes a oferta é excessiva para uma dada época, porque são tantos e tão bons ao mesmo tempo!

Até à próxima,

Fabiano disse...

É certo comparar música Clássica com Metal. Ambos são agradáveis e muito bem trabalhados e sincronizados.

Aqui em meu país já notei alguns "Metaleiros" que admiram muito a música Clássica de Orquestras e Corais (como é o único tipo acessível a alguns deles, já que a Cultura é muito pouco difundida).

Achei muito interessante seu post e espero que continue assim.

Sou grande admirador de suas palavras e suas músicas e acompanhar meio que "ao vivo" e em primeira mão por aqui é bem interessante!

Até o regresso!

Fabiano

On3iros disse...

Grande post, pa!

Por desgraza resta moito que loitar contra prexuízos. E iso que oa "Airheads" somos nós, lol!